Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Cospe fogo no circo da alma

Fotografia: O cospe fogo- Armindo Vicente

Ira não é coisa que se adquira
por conta de episódios.
Não se conta no relógio,
não se amarra com embira.

Não se vira nem revira.
Sentimento monocórdio.
Não contem troféu nem pódio,
nem visão. É erro em mira.

Também tem por nome ódio,
rancor, aversão ou fúria.
Diarreia tão espúria.
Doentio monopólio.

Pois quem o sofre sem saber
tem uma dor descomunal,
amargando o desprazer
de um pecado capital.






terça-feira, 6 de novembro de 2012

O elefante no Circo da alma

                                                                                     Fotografia: Elefante no Tsavo- Maria José T. Gonçalves

Gula é estômago compulsivo
Faz do afago digestivo
cerimônial glutão.
Um farnel farto e abusivo
ao paladar atrativo,
gastro gosto bem gordão.

À entrada vemos um aperitivo,
ao couvert já bem fornido,
Foie gras, vinho e pão.
Sem contar o prato da entrada,
depois vem macarronada,
pururuca no leitão.

Cinco chopes, Ciabatta,
muito azeite na Burrata,
ou até sardinha em lata,
para a gula é um quinhão.
Muito açucar com certeza
tem que ter a sobremesa,
sendo em calda é uma beleza,
chocolate, mel, mamão.

Quem degusta se entope,
tem glicose alterada,
tem pressão mais elevada,
muita massa, muito inhoque.
Se lhe cabe o escalope,
maionese com batatas,
ou maminha de alcatra,
é questão de puro enfoque

LDL é o cão
nas dietas mais erradas.
É questão de opinião,
um deboche na salada.
Tem gordura em profusão
no deguste da rabada.
Coronárias, coração,
são coroas complicadas.

Com o tempo as enzimas
param tudo, fazem greve
excedendo as proteínas.
exercendo a clara em neve,
indo mesmo ao suicídio.
Por comer mais que se deve,
por querer triglicerídeos.
a obesidade atreve.

Nesse aumento estomacal
elas são complexadas,
vão ficando mais culpadas,
no limite passam mal.

Se o sujeito come muito,
não evita o Vatapá.
Não despensa um torresmo
com bomba de Guaraná.
Até não caber no mesmo
cumbuca de Tacacá.
Contribui com o presunto,.
Para fechar o assunto
ainda come um Abará.

Pá de cal é aonde isso finda,
no final que coisa linda,
na cidade do pé junto.
Já sem sal, saúde míngua.
Boca em bolo de fubá.
Salivando até no olhar.
Pouca fala sem assunto,
que a língua é de mastigar.

Tal barriga na berlinda
fica tão descomunal,
devo dizer: Cabe ainda
acidente cerebral
alguns goles mais de Pinga
faz gordura acumulada,
por ter causa dilatada
em  pecado Capital.













segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A bruxa no circo da alma


                                                                                                            Fotografia: Retrato da bruxa-Flávio oliveira

Avareza é um medo pecuniário.
Uma falta, um déficit estrutural.
Com certeza vem do imaginário,
num profundo vetor solitário,
é temor inseguro e pouco original.

O acúmulo tem maior valor primeiro,
no apego retensivo ao bem material,
A sovinice sorrateira é ato pouco visionário,
até mesmo doentio, de cunho patrimonial.
Mesquinhez guardando o inteiro
afeto pelo dinheiro, de modo individual.

A avareza é uma praga
que seca o homem pelo centro,
todo o tanto é algo por cento,
seja por fora ou por dentro
ou qualquer forma de paga.
Ela carrega uma incerteza,
um pseudônimo de riqueza,
mas mendiga a falta de paz.

A avareza é a correnteza
vertendo sempre para dentro.
Guarda em si um mal tormento
se todo o gasto é ladravaz.
tornando  pobre ao avarento,
esse é seu grau contrassenso,
quanto mais guarda,mais falta faz





quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A contorcionista no circo da alma

                               Fotografia: A contorcionista Paulo Coimbra Amado

A preguiça é sempre a inquieta
e difícil arte de não fazer nada.
 É a ocupação mais completa,
é capacidade do atleta
focado em única meta
da essência desocupada.

Há que respeitar o seu ritmo,
olhando a vida com calma,
Potência de logaritmo,
é assim que ela é.
Ocupa dos dedos dos pés
até o fundo da alma.

A preguiça tem seus mistérios,
precisa concentração mesmo,
não basta ficar parado
com o olhar estacionado,
não é fazer nada a esmo.
É mesmo um assunto sério,
nem todos são preparados.
Para muitos há espinhos cardos
que impedem seus privilégios,
em muitos causa tenesmo.

Essa virtude tão sábia
por si já da tanto trabalho,
que muitos lhe metem malho,
que muitos lhe gastam lábia
contrários à sua batalha.
Os tantos querem cangalha,
ou murro em ponta de faca.
Depois reclamam do talho,
guardado em fronte grisalha.

Preguiça é o drible da vaca,
é a perfeição mais asceta
que a nossa vida arquiteta,
não tem erro, nunca falha.
Sendo atitude completa,
ela não permite atalho
onde o trabalho se meta
armando sua barraca.

Essa tão nobre atitude
não é dada a qualquer ser.
É preciso ter virtude,
É preciso merecer.
Ter latitude e longitude,
ou mesmo aptidão,
ser dono maior do tempo,
saber degusta-lo lento,
não o deixar ser patrão.

Qualquer movimento rude,
se o puder, faça não.
Acalme a respiração.
Cuidado, não se assuste
com o feitio do prazer.
Tenha-o por premissa,
concentre-se na preguiça,
deixe-a tomar você.







quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O levantador de peso no circo da alma

Fotografia: O circo III- Gustavo Longo

Mágoa é um ressentimento,
é tralha de fundo de sótão.
Crava seus dentes na gente,
queimando em larva candente
derramada no coração.

Concreto armado em silêncio,
construindo ao longo do tempo
um monumento ao descontente.
Pobre de quem o sente,
é um inimigo do perdão.

Tragedia interna e tardia
que dista do arrependimento,
na lenta dramaturgia
percorrida em passos lentos,
rumo ao culto do sofrimento
revido em mais solidão.

Resultado de um agravo
do qual se torna escravo
o fígado pertinente.
Chicana da afetividade
petrificada no vento.
Sua triste fisionomia,
ganha um maior acento
na solução sem solução




terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Mágico no Circo da alma

Fotografia: Da cartola!- Ribeiro


O orgulho é por si um autoimune.
Vagueia entre os olhos e a mente.
Para muitos é mal de semente,
quando é pura soberba impune.

É um ilusionista, o insolente,
quando ilude no que é aparente,
como jeito qualquer em que se arrume
outra força maior, e mas silente.

O orgulho paramenta um perfume.
Quando é altivez tem lá razão,
mas perdido, em defesa, é estrume.
Se é limite, é pobreza e presunção.

A arrogância é casca, um tapume.
Escondendo algo na escuridão
da cartola negra dos costumes,
nas couraças com odor de curtume,
depositárias de uma outra tenção.






quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Bailarina no circo da alma

Fotografia: Bailarina- João Pinto Vieira da Costa

Vaidade, essa criança sapeca.
Penteia-se junto ao espelho,
mesmo que sendo careca.
Prima dileta do orgulho,
tão solitária, é um balão.
Vive se vendo no céu,
vive seu mundo alçapão.
Quando é excesso, é entulho.
Quando sem corpo é barulho,
Quando sem faro é ilusão.
Essa levada da breca,
sempre vestida em vermelho,
pode quebrar-lhe o joelho
com seu charme de maneca.
Muitos lhe perdem as cuecas,
Por ela queimam salários,
causando males tão vários,
dor de barriga ou congestão.
Vaidade, essa boneca,
esconde o que introjeta
como sendo solução.
Porque dança essa bailarina?
Se na próxima esquina,
pode bem cair no chão.






segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O anão no circo da alma

Fotografia:Circo I- Gustavo Longo

A inveja é trêmula,
apequena, é falha de gosto.
Não tem aparente rosto.
Quando ataca não é amena.
A inveja quer do outro, o posto.
Não sabe cantar canção,
não pede, mete a mão,
age mal, parece encosto.
Ataca na escuridão,
essa mesquinha impúbere.
Deseja o que não tem,
tão infantil e insalubre.
Estéril fronte em alguém,
cuja arte é um desgaste.
Não soma, rouba uma parte
sem sombra e sem mesmo alarde.
Cuidados há que se ter
com o sentimento invejoso.
Não pode ser musculoso,
esse estranho jeito e prazer
de querer do outro o gozo,
e não dedicar repouso
enquanto não o puder ter.
Cuidado com o falso, amigo,
que por não conter umbigo,
não sabe o cordão romper.
Da mãe será  sempre um filho,
na falta de um estribilho
melhor que se possa dizer.
 Esse sujeito invejoso
cujo voo não sai do pouso
fica velho sem crescer.



sábado, 20 de outubro de 2012

Arco do tempo no circo da alma

Fotografia: Sequencia - André Cameron

O arco do tempo faz a memória
hereditariamente per si.
Excluindo quem dela é notória
deselegância  ao existir.
A conta final dessa história,
a qual vivemos por reproduzir,
nossa genética arbórea,
cujo Genoma nos diz
que uma sequente vitória,
codificada em diretriz,
faz da vida compulsória,
guerreira qual flor de lis.
Cuja única trajetória
nos destina a ser feliz.

Mas sendo contraditórias
as forças da realidade,
às vezes tem palmatória,
vem o dragão da maldade.
Não basta jaculatória,
Preciso é tenacidade.
Vivemos sem moratória,
o predestino é a senilidade.
Ao juizo é a declinatória
da Juventude na eternidade.
Por força eliminatória
uma e outra se invadem,
e essa luta por glória
nos destina à felicidade.







sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Fome de ser ( Olhos nus)

Fotografia: Quimera olhando Eiffel- Gabriel Martins


Você tem fome de ser
um boque de belas cores.
Mas quantas e quantas dores
compõem de fato você?

Nesse perfume de flores,
comum a um cara, o que
um comercial de TV,
compõe nos seus bastidores?

Você não sabe o prazer,
de refazer os valores,
à luta dos estentores,
na voz que fala o sofrer.

Pareço mesmo uma fera
A monstruosa Quimera
das ilusões, são janelas,
pintadas em aquarela,
No coração de quem vê.

Quando seus beijos são lágrimas,
causadas assim tão cedo,
fotografo em mim o seu medo
de um vacilo matinê.

Não há lugar para lástimas
não cabe nenhum segredo
que se aponte com o dedo,
a um solitário Zabelê.













sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Corações e mentes. ( Banguelê)

Fotografia: Segurança em Manguinhos- Roberto Moreyra - O Globo/ 10-2012 

Abstração:   Operação intelectual por meio da qual se separam, apenas no pensamento, elementos ou aspectos de uma totalidade que não podem subsistir isoladamente. (Dicionário Aulete Digital).
...
A vida é em si mesma um absurdo, a natureza dela, pelo que se saiba até o momento, é privilégio do planeta terra. Agora, com ela se organiza é uma outra história.
Sendo gregário o ser humano se socializa para sobreviver  e exercer a mais importante tarefa que a natureza lhe confere, que é a reprodução da espécie.
Nessa organização social uma superestrutura se faz necessária, aonde as regras e ideais também são produzidas e reproduzidas seguindo as necessidades do grupo social a que se destinam.
A mais bem elaborada ideia , ou menos ruim forma de se organizar conhecida é a democracia e seu conjunto de preceitos e regras de convivência de um povo.
Mas, é importante salientar que sendo um atributo do plano das ideias ela não existe fisicamente.
Ninguém jamais a viu atravessando a rua Delfim Moreira vestida para ir á praia pegar um sol, O seu corpo escultural jamais foi observado de biquini jogando altinho na orla de Ipanema, nem tão pouco jamais alguém viu esta suposta senhora que por definição tem origem na Grécia, vestida com trajes de turista fotografando as ruelas da Comunidade do Pavão- Pavãozinho, agora oferecida nas agências de viagem como roteiro turístico Carioca.
Parece óbvio que isso não ocorra, Mas Porque?
A resposta também é óbvia: A democracia tem seu corpo na escultura das idéias.
É uma Abstração humana, Ocupa um lugar nas Ideologias, a saber, no pensamento.
Mas para que a sociedade possa viver essa abstração precisa, como qualquer bem, ser produzida e reproduzida de acordo com o grupo social a que se destina.
A forma mais refinada dessa reprodução se da na organização de uma outra abstração, o Estado.
Este não é diferente, também ele não é visto atravessando a rua a caminho da praia no posto nove de Ipanema, como não é visto em certas comunidades pobres ainda reféns da violência e do poder discricionário do crime.
O Estado nada mais é que uma forma de aparelhar o grupo social a que se destina para manter domínio e controle de acordo com interesses de produção e reprodução da vida de forma determinada.
Quanto àquela moça escultural jogadora de altinho, ou a velha turista Grega chamadas, ambas, Democracia, podem também elas não serem tão belas ou idosas quanto imaginamos, podem se apresentar mais feias, mal vestidas, pouco atraentes e até fardadas, e ou armadas, para o confronto em litígio.
A democracia esta mulher invisível, e o estado este Deus poderoso, na verdade são organizações humanas com especificidades que refletem o grau de reconhecimento que um povo tem de si mesmo.
Quanto mais agregado, quanto mais solidário, quanto mais educado, quanto mais participativo, mais cheia estará a praia aonde a musa Democracia vai se banhar, ou aonde essa senhora caminha com maior ou menor desenvoltura.
Quanto ao poderio do Estado, este se organiza de forma a atender aos interesses de quem? Como instrumento de força, vai dar significação às necessidades  sociais às quais representa. A pergunta que aqui se faz é: Quais são?
Se uma comunidade social se agrupa sobre o guarda-chuva da violência, se a nossa musa se apresenta mal trajada, acanhada, ou tem hábitos pouco sociais, estará ela encarcerada em dois tipos de habitáculo, a se observar:
Ou enclausurada em palácios, guardados por grades, excluídos em condomínios de elites, clubes fechados, carros blindados, e guardas, e regras, e insegurança, e guetos, num regime disciplinar diferenciado, ou na outra ponta estaremos diante de uma multidão de  excluídos não cidadãos, também enclausurados em comunidades sitiadas por milícias ou  em presídios, e regras de convivência mínima, e disciplina controlada pelo estado poderoso e indiferente, organizado por conveniência.
São dois pesos de uma mesma medida social, que se vigiam e se punem de modo  violento, e regras de agressividade brutal, assim de algum modo se completam.
O ideário dessa organização é a desigualdade, é a violência que assim se reproduz alijando como descarte humano aqueles que não são necessários à primeira vista, mas de fato estam contribuindo para o barateamento da mão de obra em ultima instância. São responsáveis pela desqualificação do trabalho e pela distribuição altamente concentrada da riqueza material.
A forma como isso se da ?  Esta intimamente ligada à correlação de forças que irão se espelhar na produção de leis. leis essas que serão aplicadas para atender a um maior ou menor grupo de poder, em maior ou menor peso, de acordo com as forças de interesses a que compõem.
Leis casuísticas não o são por acaso, ou incompetência de juristas ao produzi-las. Há quem diga que o acaso não existe.
Descaso social com suas variantes também não é coincidência.
O crime e o castigo são primos entre si, e se correspondem na frequência da organização  de um povo que se pauta não por sua inclusão, mas por sua exclusão. As diferenças de um regime reproduzem seus danos, as vezes de forma irreversível, em corações e mentes.







quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Hora tércia ( Banguelê)

Fotografia: Camões...-Tânia Almeida


Já se viu numa situação dessas?
Como se o mundo virasse ponta cabeça,
e a gente vivesse às avessas ?
O Talibã financeiro executando a Grécia.
Enquanto Cayman solar recebe outra remeça.
Um gol no Maracanã vai nos tirar da inércia ?
Não sei onde isso vai dar, nem bem aonde começa.
No flamboaiã Paqueta? No Aiatolá lá da Pérsia?
Se alguém quiser lá orar, deve se virar à Meca.
Morrer no jardim de Alá, aonde o Torá não versa.
Os clãs do mundo são o limo, são o destino da mércia.
O peixe que está no mar será a futura Muqueca.
Água de ser, camará, leio em Camões na hora tércia.







sábado, 6 de outubro de 2012

O olhar da Carranca ( O olhar da carranca)


Fotografia: olhar da Carranca-Ricardo Araujo

 Depois caiu a noite. No lusco-fusco da orquestra tocando Solamente una vez Pedro leiloeiro bateu o martelo, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, Vendido,  na existência roubada como cabrito assado enfeitado em laço e celofane na quermesse de paróquia dos preconceitos que viriam, era o começo de uma história.  Ele vai dizer que não, nenhuma história fica pronta ao ponto de findar lembrança, isso lhe bastava por tudo que já não havia escrito, no mais  a cerveja perdia espuma no balcão.
Frei Leto lhe vinha à memória com o colorido de seu sarcasmo franciscano e sua fisionomia jovial de Fradinho do Henfil.
O frade foi a primeira observação de que era possível viver com bom humor diante de dificuldades, o frei era feliz.
Ele se lembrava dos primeiros movimentos para superar a timidez, para recriar  condução própria, tinha um caminho rumo ao mar, havia muito que aprender a andar, pois o Porque se faz é andando.
Enquanto a tarde morria, a nova classe média funcional passeava pela calçada esburacada de pedras portuguesas, na esquina da Duvivier com a Barata o universo cosmopolita girava em tour.
Na banca de revistas o sol e o vazio dos leitores modorrava.
_Ai de ti Copacabana! Ele pensava.
Depois do terceiro gole pousara o copo americano na bancada, e no silêncio interno de si mesmo,  deu-se conta de que o tempo havia passado.
Já a muitos anos o Expresso Sayonara dobrara a esquina e contornara a praça Coronel Ramos rumo à estrada da memória, ao pó avermelhado do destino.
Chegada a hora de fazer o balanço geral dos sonhos nas contas da realidade, essa soberana implacável já reinara tempo bastante a se haver contar.
A vida se agrisalhara e a hora era essa, Ítaca sera passado, essa memória iluminada à luz de velas.
_Olha a vela...
_Olha a vela...
_Orai vela...
Serpenteava a procissão, enquanto os bolsos iam se enchendo com o peso das moedas. As notas miúdas daquela gente devota, também ela miúda e fervorosa, abasteciam a franzina fé financeira do menino. Eram os sonhos de brinquedo.
Enquanto a banda soprava um bombardino fúnebre e o surdo respondia com a dor das desumanidades, ele faturava sua própria infância mercantil.
_Olha a vela...
Diante da desventura do senhor morto, a alegria das primeiras mercancias era evidente naquele infante sem trono, sentia-se um gigante sem prumo.
Ele era diferente, haveria de o ser por toda a vida, estava descrito, era inevitável. Chamava atenção quando não queria, trazia a indiferença dos olhos na pele, nos passos, até nos ossos. Mas havia a esperança, a tecelã de todos os futuros.
A noite ardia à parafina.
_Senhor tende piedade de nós...
Como contar uma história cronificada de experiências e tentativas? O incerto fica encrustado por sobrevivência no inconsciente.
Como trazer o caminho à memória?
O apito do vapor aportara sua carranca trazendo rio acima a Bahia, Pernambuco, o Nordeste, a fome pendurada por cinco dias de farinha, de rede e lenha das caldeiras.
O burburinho geral no cais perfumava à boas vindas diante dos seus olhos.
Alguém haveria de chegar, algo haveria de acontecer, mas quem? O que?
Aquela gente morena, cansada e altiva, era tudo.
Subiam as barrancas do Chico buscando e trazendo vida, buscando e trazendo histórias, buscando e trazendo desejos. Eram pescadores, eram canoeiros, eram lavadeiras nas pedras, eram as lembranças do sabão Tingui, era o Brasil profundo, era ele, o próprio, trazendo na proa dos olhos o olhar dado das carrancas...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mergulho ( O trago da seda)

Fotografia: Quase pronto- Antônio Soares

Não se expõe ao ridículo?
Não tropeça no acaso?
Nunca trocou um passo?
Nunca pagou um mico?
Nunca foi um palhaço?

Nunca queimou o filme?
Nunca perdeu razão?
Jamais errou na mão?
Há algo que o desafine?
Quem não perdeu ilusão?

Quem nunca cometeu gafe?
Nunca deu maior mancada?
Quem nunca cai na cilada?
Quem não sofreu xeque-mate?
Quem não entrou na roubada?

Quem nunca pisou na bola?
Nunca foi um desastrado?
Quem nunca foi questionado?
Quem nunca disse e agora?
Quem nunca foi o culpado?

Nunca falou uma bobagem?
Quem nunca desdenhou fé?
Quem nunca foi um lelé?
Quem nunca manchou imagem?
Quem nunca falhou até?

Quem é total e desperto?
Sem um vacilo qualquer?
Quem é maior que Javé?
Ou é normal tão de perto?
Quem nunca caiu dos pés?

O erro é o pai do acerto.
Salvo o menor engano,
meu caro amigo fulano,
o ser humano  é conserto,
e o mundo é a falha do plano.


sábado, 29 de setembro de 2012

Poema do erro no amor ( O circo da alma)

Fotografia: Macrofotografia vs  soneto Vinícius de Moraes
Epígrafe do Poema dos olhos da amada de Vinícius de Moraes
.
Ah! Minha amada
que aos olhos sofreu.
Procura verdades
trocando metades,
como indo a Deus...
Tem desesperanças,
na contradança,
por erros meus...

Ah! minha amada
Não sou fariseu
Se acaso não sabe
a calamidade,
o desastre, sou eu.
Tão velho e criança,
quebrei confiança,
no que aconteceu...

Ah! minha amada.
Se o cristal rompeu,
abriu-se a cratera
na flor mais bela
do nosso apogeu.
O sal sobre a terra
sobrou a quem erra,
e o erro é meu...

Ah! minha amada
não me diga não.
Se todo o desgosto
distante e torto
te fere a razão.
Fiz triste seu rosto,
de alma e de corpo,
eu peço aqui perdão...




terça-feira, 11 de setembro de 2012

Prato cômico ( Beco da fome)

      Fotografia: Laranja mecânica- Telmo Ruy Fernandes

Não é caldo de galinha, não é Canja.
Não é nada que se sirva no almoço.
Mas tem casca, sem semente ou caroço.
Se parece mas não cresce igual toranja.

Não se pode definir, não há um laudo,
que nos diga se é bolo ou se é doce.
Eu não sei como  surgiu ou quem o trouxe,
Mas eu sei que é gostoso e tem respaldo.

Tem a massa bem cremosa de laranja.
Pedacinhos de um queijo  derretido.
Tem três ovos que devem ser bem batidos.
O açúcar próprio, a fruta  nos arranja.

Junte a tudo uma colher boa de amido,
com três xícaras bem cheias de farinha.
Ponha sal, bem pouquinho, a pitadinha,
bata bem até ficar tudo unido.

Não se esqueça de juntar também manteiga,
duas colheres que é para fazer a liga.
Tendo feito, vá com calma, vá sem briga.
Não tem nome mas não é receita leiga.

Sendo bolo, doce, ou antropológico,
o que importa é o prazer que á coisa cause.
Aprendi ouvindo um blues da Amy Winehouse
não esqueço do fermento biológico .

Unte a forma com manteiga por inteiro,
polvilhando com mais farinha  de trigo.
Ligue o forno e  o mantenha aquecido,
com água quente dentro de um tabuleiro.

Nessa forma jogue então a nossa massa,
sobre o fundo de uma forma uniforme.
Tendo tudo isso feito, e nos conformes,
cento e oitenta graus e a coisa assa.

Quem puder lhe dar um nome gastronômico,
que o faça porque o nome lá não tem.
É saboroso, é saudável e faz tão bem.
Na receita mais parece um prato cômico.




sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Eu não vou desistir ( O olhar da carranca)

Fotografia: voo sincronizado- PPS

Os meus olhos trazem ao vivo
O que do mundo puderem olhar.
Observam teus olhos altivos
do universo da libido,
qual uma explosão solar.

Meus olhos estão contidos,
nos olhos que são os teus.
Meus olhos só têm ouvidos
para todos os mil sentidos,
de descortinar os teus véus.

Meus olhos não tremem sustos
com os barulhos dos céus.
Não fazem conta dos custos,
nem se escondem nos arbustos
das trilhas do mundaréu.

O amor que trago comigo
foi colhido no olhar teus olhos
neles colho meus sentidos
deles faço meus abrigos
nas tormentas dos abrolhos

Não temas medos antigos,
os vãos, as intrigas do tempo.
Estarei sempre contigo
aonde fores, a sigo
independente dos ventos.







quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Atenção ( O olhar da carranca)

Fotografia: Mau tempo, Bom tempo- Paulo Dias

Com a vida se passando, na escola do  simplesmente, é que pude desvendar em mim mesmo, aquilo que de mim não sabia; Pois dos outros tenho sempre a informação vencedora a título de realidade, é o aparente do mundo ao meu lado, nunca o velado.
Foi preciso acalmar assombros, foi vital soerguer escombros, foi legal aprumar os ombros e colher a minha própria solução.
Se a divergência é um universo, minha história é do caminho, do chão, sou divergente manifesto.
Foi preciso aprender a respeitar onde piso, para poder encaminhar mais acurada a atenção do que sou no tempo e espaço.
Foi com a vista se alastrando, com a força do destino, só assim pude laborar o acaso, me apoiando no então do improviso, foi assim mesmo, sem nenhum aviso.
Necessário foi, dissolver os grumos da vergonha instalada à revelia  do querer próprio, em água morna, para não encaroçar em ilusão, para não me queimar na fumaça da insegurança, foi pertinente ter opinião, ter atitude, Quebrar a ponta da lança com a minha ginga, com a minha dança, com a pulsação.
Meu tempo é de alegria, de não me afogar no caldo insossego e calado do mundo dos lamentos.
Foi com ciso que aprendi a tirar o guizo do leão do dia, foi com essa alegria, com sorriso, e com tesão.
Na vida é urgente ter peito para achar um jeito sem perder a mão, sem puxar o cão, sem fechar o coração; Nessa lida ponho os olhos nos olhos, ponho as mãos nas outras mãos, ponho corpo a corpo, e no amor presto muita, mas muita tenção.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Narciso S/A ( O circo da alma)

                                    Fotografia: Narciso-Brunna Guimarães


Escraviza-se no espelho
imaginário, sem o olhar,
no que se mantem de joelhos,
ensimesmado num altar.

Mas o escravo, por conselho,
não se espelha ao não se ver.
Nesse momento aparelho
sega os olhos ao prazer.

Num tal desvio, nessa onda,
flexiona o seu desejo.
Narcotizado, nessa lombra,
entorpece ao sombrear
a própria sombra,
em satânico cortejo.

Nas pedras paredes de Eco,
do erótico fulcro, o sobejo,
grita à ausência do objeto
tão aclamado, é um adejo.

Sendo o desejo o sabor
que se externa no alheio
no outro há de estar o veio
O doce e o leve do amor

Se a vida é de ser breve,
não se a perde em solipsismos.
Só narciso à imagem deve,
e a solidão é um abismo.
A beleza é uma tênue flor,
O tempo do amor é conciso










sábado, 18 de agosto de 2012

Um pão de Queijo e um beijo (Beco da fome)

                                                  Fotografia: Pão de queijo- Sandra Lapertosa

Vou dizer o que aprendi para aguçar o desejo
afrodisíaco souvenir, o afamado  pão de queijo
feitos por vovó Bibi, a quem de cá mando beijos.

Tem que ter três copos cheios alem da borda sem medo.
O beijo pode ser doce, mas o polvilho é o azedo.
Um óleo que já bem quente, a mais de um  copo, dois dedos.

Escaldada essa fécula com o calor do óleo quente,
deve-se também fazer, com outro tanto em água fervente,
para a goma então formar quase a massa eminente.

Pois que o bom sabor mineiro, seja o que se o aproveite
quem de água não gostar pode usar opção leite.
Uma colher vai de sal, que ao carimã se deite.

Observe o principal, que vem dar ao pão o nome
também é o fundamento do prazer de quem o come
Queijo Minas, Roquefor, Parmesão ou Provolone.
Mussarela, Emmental, misturado ou Mascarpone.
Qualquer queijo vale a pena para o tamanho da fome.

Depois disso vem os ovos, para início quebre cinco
No prato ou batedeira, bata e espume com afinco.
Junte tudo e mão na massa, nosso pão já vem surgindo.

Apalpe, amasse, aperte, use a força se quiser.
Sove, alise, deslize como em bunda de mulher .
Use toda a expertise, a massa pede, ela quer.

Depois, ainda batidos, mais três ovos e vontade.
Continue, mão na massa, até dar cremosidade,
dar leveza ao pãozinho, dar memória, dar saudade.
Para tal, ponha carinho, ponha amor, mas de verdade.

Feito isso não se esqueça de pré aquecer o forno.
Deixe-o quente, quente mesmo, ele não pode ser morno.
Pois se acaso ficar frio, a receita é sem retorno.

Prepare os tabuleiros para receber nosso pão
faça bolinhas esparsas usando as duas mãos
redondas ou ovaladas, a forma não faz questão.

Deixe espaço entre elas para haver crescimento.
ponha então tudo ao forno e dê tempo ao próprio tempo.
De vinte a trinta minutos sem abrir pra não ter vento.

Depois disso é a hora de retirar a iguaria.
Agora deixe ao descanso dois minutos na bacia.
Com café, suco ou chá, fiz o mimo pra Maria.