Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vou(a puta me encantou)

Jorge Vieira (1922-1998) Sem título, 1947

Há no meu peito um templo em fúrias,
deixo-as guardadas com as certezas.
talvez porque tenho as vergonhas,
talvez porque ao virar a mesa
desse amor sobra enfadonha,
tenha notado nele: Só tristezas.

Agora é noite e chove muito,
vou porque não amo com riqueza.
Desse amor falta-me assunto.
Saio pela porta e levo junto,
na escuridão da vela acesa,
o que dele mesmo hora defunto,
tenha ficado: Só tristezas.

Não tendo paz na minha vida,
vou caminhar na noite escura.
Levando a carne e as feridas,
em solidão buscarei cura.
Na morte desse amor havida,
cambaleante em correnteza,
dessa união mal sucedida,
tenha sobrado: Só tristezas.

Fim de amor é vida inglória
acaba aqui essa centúria
decreto o fim da nossa história
Há no meu peito um templo em fúria.

domingo, 28 de junho de 2009

Contradição(a puta me encantou)


Incomodandodrumond- s/d- sem autor

Sei não!!!
Estou brigando comigo,
todo enfiado em solidão.
Há algo errado, eu me digo,
ando caindo no chão.
Parece que busco um pecado,
para obter um perdão.
Num coração complicado
Isso é contradição,
Sei não!!!
.

Poema chinfrim(a puta me encantou)

Sem título-1963-Pablo Picasso

Todo inicio do fim
é do outro lado começo.
Paixão é pedra no rim,
amor é algo diverso.

Ela não esta em mim
e eu não estou no seu verso.
Pólvora fogo em estopim,
finda a ilusão nesse resto.

Então ficamos assim,
num samba de manifesto.
E o couro de um tamburim,
apanha como protesto.

Vai num poema chinfrim,
é o que lhe cabe por certo.
Explode coisa ruim,
que eu vou no caminho inverso.

amizade(a puta me encantou)

Auto-retrato-1972-P. Picasso


Plantei amizade com a vida, seu fruto tem gosto e tesão.
um pedaço cura as feridas, outro as farpas da ilusão.

Seu vinho bom é de Baco, bebido no ato com pão.
Sou único desse retrato, não tenho reprodução.

Olha que o mar tem um fato, em cada arrebentação.
Hoje nos somos hiato, aonde ontem fomos paixão.

Abri a janela em açoite, entrei pela porta humorada.
Na fenda solar de um corte, vibrei sua gargalhada.

Colhi da boa alegria, a muito encabulada.
Por uma paixão ventania, que deixa a paz dominada.

Fui homem de fino trato, sem patente e sem perdão.
Quem fica bem ao meu lado, aprende a cair no chão.

Beijar a boca da noite, deixando a manhã bem molhada,
enquanto ouve pandeiros, amando de madrugada.

Quando o sol vem pelo cheiro do corpo de quem é amada,
o amanhecer é um tinteiro, pintado na noite estrelada.

Vou caminhando de leve. A minha amizade é nua.
Se vou, sei que volto em breve, para regar a que é sua.

Há um samba que me descreve quando venho, é quando passo,
sinto meu peito em neve, por falta do seu abraço.

A minha vida é de rua, a quem ela é emprestada.
Mas como as pegadas na lua, eu deixo a amizade plantada.

sábado, 27 de junho de 2009

Amar: Sobre a liberdade( o trago da seda)

Liberdade-2008- Santiago Ribeiro

A liberdade está no momento
exato da relação
perene entre as asas e os ventos.

Abraço ao Tabajaras(perna bamba é do samba)

                         foto: marco Antonio Cavalcanti
Não vou hoje ao Tabajaras
saber das suas ladeiras.
Ontem cidadania cara,
hoje busca primeira.

Onde a força da marra
amarra numa cadeia,
o morador que trabalha
ao outro da bandalheira.

Tabajara é um povo
de descendência guerreira,
há de quebrar esse ovo
que a serpente arreia.

Nessa atitude há quem queira
apagar todo estorvo
desta guerra de trincheira,
impostando algo novo.

Não vou, mas o abraço te chega
como um olhar de criança,
trocando algo que espreita
por gesto de esperança.

Cidadania na mesa
é prato dessa festança,
alimento das certezas
havendo de encher pança.

Uma ação certeira à hora
tirando gente da beira,
Para por no meio da roda,
fazendo-a pessoa inteira.

Tabajaras, essa escarpa.
Não cai no esquecimento,
por hoje não vou, lamento,
mas da próxima não escapa.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

E agora(perna bamba é do samba)

                                                                                                                                                    fodasefoice- 2008-Nuno Maia



Como é que eu faço agora?
Como é que eu posso fazer?
Seu nome não sai da memoria,
eu vou tentar te esquecer.
Ouço Paulinho da viola,
próximo á Duvivier.

Com ele a paixão evapora.
Tenta se desfazer.
Bebo Paulinho da viola,
e o mar navega você.
Fui eu o soldado raso.
Eu que evitei te prender.

Prendo-me a mim nesse caso,
qual o alvará passo a ter?
Num samba que agora é traço,
pergunto ao meu peito cedê,
o cheiro do seu abraço,
ou o seu olhar de tiê.

Será que voa no espaço?
Ou sabe amar por prazer?
Esse é um poema escasso,
eu disse que é pra te esquecer.
Ficou vagando, eu acho,
tentando poema não ser.

Do que não houve, não há resto,
auge, ou algo a dizer.
Canto por que manifesto
o que o peito quis tecer.
Ao meu afeto eu adestro,
então não há do que sofrer.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Eros(a puta me encantou)

Eros e psique-1817- Jaques-louis David


Minha boca há de beijar de tal forma
a outra tua,
que a rima despida, a fará gozar como
fosses nua.





Poetas ao leme

Foto: Louis e Bandeira do Polem- s/d -Blog polem

Há num cantinho do Leme,
bem nas portas de Copacabana,
quando é noite a serena.
Ao sereno se declama,
sobre os toldos da poesia
com seu perfume de dama.

Sopram seus temas poetas,
edificando as ventanas.
Por onde o poema na certa
há de trazer peito em festa,
versando em nobre etnia,
para encontrar quem o chama.

Vem entre um gole de pinga,
um quentão, um vinho pobre.
Para que a garganta amiga
aquecida o verso entorne,
numa letra de cantiga.
Onde outro poema ocorre.

São como galos de briga,
põem esporão nas palavras,
Com as quais fazem as vigas,
do quiosque onde eu estava.
Se a poesia é liga,
é como o samba, não morre.

As trovas por liturgia,
as musas por companhia,
a pedra fazendo campana,
olhem bem a lua que espia.
jogando sua luz vadia,
na poesia urbana.

O mar na areia faz franja,
alguma rima lhe havia,
com o ronco rouco pedia,
mas esse verso por canja.
Já próximo o sol se arranja,
finando a noite no dia.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Se eu pudesse dizer que te amo(perna bamba é do samba)

Sleeping baigneuse, 1897- Pierre-Auguste Renoir

Quando ao mar revolto veio a calmaria,
nessa hora eu homem quedei-me aos seus braços.
Como a rocha firme adere ao sargaço,
trouxe nesse enlace o limo da poesia.

Cantei à espuma branca molhando seus passos,
tanto quanto canto ao corpo que traziam.
Ressurgiu inteira nesse meu mormaço,
Eu simples pedaço diante da alegria.

Nada mais havendo de grande valia,
seguiu a tarde, e o tempo e o cansaço.
onde o amor não arde, a carne exigia.

A mulher que quero é a que não acho,
Como pescador com a rede vazia.
vagas são os carinhos, e esse mar devasso.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Autoestima(o trago da seda)

Sarah Rede de Hospitais pelo Brasil

Neurocirurgia
nela a alegria
de quem não sabia
volta sedutora

Quem é que diria
que a beleza um dia
voltaria à vida
coordenada e boa

Sorriso dispara
em ponto de bala
quando ela fala
do seu corpo que voa

Reconstroe tão linda
nova e recorrente
trova de auto estima
causa comovente

Engenhando gente
nova e que se instala
em gente novamente
essa rede é Sarah

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Abusada(a puta me encantou)

Suite Manequins-1986-Iberê Camargo

Essa paixão é abusada,
liga de madrugada,
mas não tem o que falar.
Acorda no meio o meu sono,
de mim já não sou meu dono,
ela diz que vem namorar.
Traz erva de deixar louco,
com ela a mim entorpece.
Engole-me todo aos poucos
assim a giboia vence
então fica toda dengosa,
aberta qual rubra rosa.
Aos gemidos umidece.
De mim não tendo mais pena,
seu cheiro é de açucena,
sua agua é espuma de mar.
Ao meu corpo essa madona
avisa quem é a dona,
quem sou eu pra reclamar.
Então traz do fundo à tona
sentimentos que detona,
até a mulher se acalmar.
Depois para o lado rola,
parece que vai embora,
antes do dia clarear.
Carrega em sono de anjo
o que de mim com esbanjo,
levou porque veio buscar.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Copacabana à princesinha do bar(perna bamba é do samba)

Menina do Rio-s/d-Maria Lina Smania

A fulaninha é popular
nas noites da cervejinha.
Fim de semana à tardinha
é tão sua a luz solar.

Finda a praia, eu a observo
como servo dessa beleza.
Quando ela vem com certeza,
sou obrigado a olhar.

Parado como o trânsito,
em transe com o meu sangue.
Vendo esse corpo Não exangue,
o meu é que fica aflito.

Roubando minha atenção,
vem ela de jeito clássico.
Cativa em mim tal visão,
acho que a acho o máximo.

Meus olhos de bumerangue
em mim fazem notado,
ereta palmeira do mangue,
que o sangue tinha baixado.

Os passos caminham lentos,
são mesmo de apaixonar.
Cabelos molham os ventos,
deixando pra quem olhar

ideias de bons desejos,
esguios vindos do mar.
Num requebrar de lampejo,
gostoso de observar.

Será que o oceano ao lado
sabe o caminhar da moça,
fazendo quebrar a louça
de um coração machucado ?

Quando ela passa desvia,
para onde não sei dizer,
a calma que em mim havia,
antes disso acontecer.

Então fico eu bolado,
peço mais uma cerveja,
em solidão sertaneja
bebo o líquido gelado.

Quando ela aos meus olhos olha
por dentro de óculos escuros,
na timidez da memória
meus óculos quebram os muros.

Ainda seguindo a história
desse fato consumado,
ela vem e bebe ao meu lado,
provocando uma alegria.

bebo uma duas e três,
para irrigar os meus sustos,
olhando de quando em vez
a solidão do seu busto.

São dois pássaros presos,
acho que doem como siso,
pois imagino-os acesos,
em mim fazendo o sorriso.

Depois seus cabelos secos,
em meu olhar sem desvio,
penso os meus dedos presos ,
por entre aqueles fios.

É mais que corpo essa mulher,
trazendo bela o que lhe é próprio.
Feliz quem dela mais tiver
extraído que o ópio.

por modo dele acabar,
sai o verso dessa esquina,
nesse amor de morfina,
tirando a dor ao passar.

Não é uma escolha sua,
ser poeta é sem escolha.
Apenas escreve em folhas,
o que o homem vê nas ruas.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Público alvo(a puta me encantou)

Favela-1967-Teruz

Nunca gostei de escrever à toa, algo barato, apenas busco descobrir nas letras o que haja de sentimento, para alem do recato.
Não os sentimentos claros, mas os evasivos, os escondidos das palavras, as travas; Nem mesmo os sentimentos elegantes ou bonitos, mas o desacato.
No momento quero aqui, o que há de delicado no palavrão mais falado.

Essa canção e para aquele que teve educação desiludida , canta aos deseducados, aos excluídos dessa palavra graduada, a contra mão de uma nação, o grão.
O meu canto é para eles, que reproduzem no pancadão dos bailes suas mazelas e crenças, de forma brava e rebolados.

Quero o momento cidadão que há de surgir no trem lotado, no sufoco do vale transporte.
Da dívida na agiotagem involuntária do sujeito de olerite precário.
Na correria que vem do rapa perseguindo o subemprego, um e outro mal arranjados.
Meu poema vai dizer do olhar opaco do desempregado.

Desejo e esperança tenho, de tocar-lhes na alma com o que é simples poesia, que alguma coisa lhes diga, ao jeito do desamparo.

Faço o verso agora, a quem é a menina e a fome, que ao consumo vende bem barato o seu corpo novo e inacabado. Verso carne em fogo, verso carne queimada, no lugar e na hora errada. Verso forte de juventude esbulhada.

Vem se juntar à poesia o franzino e amarelo menino, menor ainda, com seus olhos marcados de chão e sono . Ele e o crack da bola de pedra a cinco reais , baque e enfoque rápido da morte. Entulho humano eliminado de forma mágica em sua última balada infante e trágica.

Para esse é sim o meu poema, mesmo que dito a quem jamais saberá, pois tem a vida corroída na má sorte viva de ter sido inesperado, veio do ralo.

Com esse verso quero espargir em todos os rostos a poesia necessária e itinerante, dos ambulatórios públicos feitos de saúde precária e gente nobre e mal paga. Borrifar de rimas a pequena professora e sua escola de comunidade sitiada na milícia armada. De livros poucos e abnegação de ideias

Levo a poesia agora às delegacias lotadas, dos pequenos furtos de possibilidades futuras perdidas, ou quem sabe mesmo roubadas, nas sequelas dos que ao fim da linha pagam a carcomida corrupção nativa dos que podem.

Meu poema agora é a dengue, é a ausência sanitária , uma poesia malária, ressurgida com seu rosto vinculado ás conseguencias de vida deficitária.

Poema esse que cresce com as moças e com os moços empoçados, encurralados nas favelas planas das cidades, sem planos , sem a plena solução de felicidade. É poema Josilene e Cleonilson, é poema Vila Kelson's, Nova Holanda , Baixa do sapateiro, Vilas do Pinheiro e do João.
Esse é o poema ligado no povo da Maré e do Cruzeiro, compléxo do Alemão.

Esse é meu poema bom, o bacana! Ele se desdobrando em bicos de avião, ela mete os peitos jovens no calçadão de Copacabana. Sobrevivência chicana.

Êta poema bonito, êta que a vida é sacana.
Com a carência de rima na jovem mãe prematura trazendo no colo outro que ainda mama.
Êta poema bonito, êta poema sacana.

Quem sabe ao poema caiba, assim deixar um recado nos bancos da pouca escola, nos trancos dessa história, pois é o que ele sabe antes de ir embora.
.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A surtada(o trago da seda)

Duas Figuras-1973-Arthur Barrio

Escapole nesse verso a fugitiva, perambula com cidadania roubada.
Escreve aos cegos um pedido em missiva, uma moeda para a cerveja gelada.

Inverte o inverso comum das comportadas. Nos sentidos submersos vai a louca, desprovida de razão, dela amputada, a vida fica reduzida a coisa pouca.

Escancarada ela é pública privada, espraiando o surto necrosado, curta e rota.
Mendigando a persona de si exilada, vê-se em seus olhos existência que desbota.

Chama aos gritos a personalidade quebrada, nessa fratura exposta vê-se que esta torta.
Tem a indiferença transeunte ocupada, em si fechada, perdeu as chaves da porta.

Vive o desvio e tem a calma esfaqueada, dorme em soleiras sem as noites garantidas.
Terá saudades de alguém nela trancada?
Ou há nos gritos a identidade perdida?

Bebe ao conflito invisível, não é nada.
Quem passa escuta, mas não ouve esse conflito.
A vida é rápida e sopra sempre ocupada, o olhar comum so observa o que é bonito.

Perdera um filho num incêndio ocorrido?
Ou terá sido ela mesma a incendiada?
Arrasta a vida no exíguo espaço frio, que lhe sobrou de emprestado na calçada.

Do coletivo a loucura è um apenso.
terá a guisa de uma paixão desavisada ficado louca por amor,
perdido o censo?
se fora assim é uma louca apaixonada.

O seu barulho é de humano detrito, nessa cidade bela e violentada.
Não saberemos o que terá de fato havido, no surto agito dassa pobre desgraçada.
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terça-feira, 19 de maio de 2009

Demônios no chão( a puta me encantou)


Mural de Di Cavalcante no Ed. Triângulo- SP

Um pedaço de saudade se soltou de mim, como pastilha de fachada de um velho prédio.
Dei-me conta de que a solidão se solta assim, desprendendo-se aos poucos , por assédio.
Os solitários têm do amor um cunho autista, feito o artista num solo único de trapézio.
Como se dividir a vida fosse um vício radioativo, perigoso como o césio.
Se lhes despencam da memória as paredes, fica evidente o que maltrata o coração.
É que o trapézio nesse caso não tem redes, então para que se esconder de uma paixão.
O amor vadio este sim é o mais gostoso, Tem de perigo o que também de tesão.
Nesse artigo o seu corpo é bem zeloso, se você volta como posso dizer não?
divertido conviver com seus critérios, manuzear seus labirintos com as mãos.
Acaba o tédio e fico duro sem remédios, no seu corpo assim me embrenho feito um cão.
Até ficar o meu corpo agarrado, sendo os chiados seus o meu diapazão.
Depois do embate dos desejos já suado, então dormimos com os demônios no chão.
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domingo, 17 de maio de 2009

A leoa(o trago da seda)


Mulher-1983-Luiz Soares

Às vezes a meiguice se esconde,
nas veias quentes teme ser fraqueza.
Então essa mulher se faz de homem,
querendo colocar o pau na mesa.
Momento em que tal ferocidade
apaga o seu sorriso, é leoa.
Range os dentes a guerreira na cidade,
desconhece a tranquilidade boa.
Não tem noção de silêncio elegante,
ou do poder de envolver, dialogar.
A felina é ferina no rompante,
fica gigante e marcial ao se postar.
Por que um gênio assim? do que tem medo?
La onde o profundo feminino mais guardado ecoa.
O que dela mulher tem em segredo,
nos gritos que ouvi, e a voz destoa.
Eva tão rigorosa consigo mesma,
destreza que parece vir de ontem.
Esquece de ser leve com a firmeza,
não gosta mesmo que lhe desapontem.
Tendo em algum tempo tudo que queria,
alarido ainda empana-lhe a sensatez.
Mostra bem mais na sua forma bravia,
essa fêmea eriçando a sua tez.
Os trovões saem na língua de enguia,
são os carinhos que de sorte não se fez.
Fosse-lhe a vida só um pouco mais vadia,
mataria de outra forma a timidez.
Quanto muro, tanto escudo, manto couro.
Tendo a mesma no seu peito a guarita,
para guardar um coração de ouro,
no belo corpo da mulher que grita.
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sábado, 9 de maio de 2009

Filhos(perna bamba é do samba)

Imaginações e objetos do futuro

Os filhos são nossos zelos,
com os trilhos que somos deles.
Para o mundo chegam em pelos,
depois vão estes e aqueles.

São outros quando são aves,
povoam o céu como estrelas.
São quando novos suaves.
Desenvoltos queremos ve-los,

Que sigam os seus apelos,
padeçam dentro de nós.
Cometam tambem seus erros,
produzam a própria vóz.

Entoem seus novos cantos,
entorne-os em nossos bares,
afugentando os espantos,
são marinheiros aos mares.

Tenham às mãos cartas náuticas,
latitude por polaris,
com as quais cultivem coragens,
para abastecer aos pares.

Acertem os seus caminhos,
aprumem-se ao mundo inteiros.
se querem vestir-se em linhos,
que ganhem algum dinheiro.

Sendo o mundo uma noz,
partam-no em tantos cacos.
Então já seremos avós,
por fim memoria, um facho.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A cuíca(perna bamba é do samba)



Samba-Zélia Salgado-1947


A cuíca esse instrumento genial,
misteriosa como é uma mulher,
quando mal tocada é agressão total.
Não se deve bolinar de forma qualquer.
Umedecida sob o pano tem de ser,
ela é a doce fala em lábios de atrevida.
Sente o tato e abre-se a planger,
sons de amor que doem como ferida.
Feminina também tem o seu ponto G,
íntima aos toques da marcação grita.
Em seu tom o gemido é de prazer.
Freme a vara, e o grelo em pele vibra.
Na cama da percussão, gargalhada,
vence ao recato, em sons lhe domina.
Privada è gozo de namorada,
em namoro é agito de esquina.
Se por dentro ferve toda molhada,
por fora é pura; Vestal de adrenalina.
Se fala algo é logo notada,
calada é observação que intriga.
Por baixo do latão inóx da saia,
será ela dama ou rapariga ?
-

terça-feira, 28 de abril de 2009

Saldo devedor( o trago da seda)

Dittico Duchamps-1990- Franco Vaccari

Há pessoas que se guardam nas ideias próprias, mesmo se as vezes,  por serem senso comum, adquiridas ou locadas no mercado ofertado das certezas absolutas dos conceitos prévios.
Somente quando essas ideias se cruzam, há conforto entre elas, há sempre mesma escuta na identidade previsível.
Assim e somente assim, essas pessoas se postam juntas lado a lado.
É razoável, para quem os encontros devam ter garantias de que os riscos da controvérsia, e suas possibilidades, sejam de fato neutralizados ou anulados
do perigo iminente de convivência com o diferente. São os similares.
Se eu fosse um economista, diria então que com isto forma-se bolha de ideias.
Uma total liquidez dos pensamentos absolutos investidos no absurdo universo
imobilizado do risco zero. Não pensar é um tipo de garantia, a alienação é um conforto. Mas sendo só um poeta , tenho nas palavras a arquitetura torta do raciocínio sem trena, minha calma não é pequena.
Estou sempre em constante desequilíbrio, comum ao fabrico das ideias novas,  resultantes das custas de enganos, dúvidas, dores e sabores; Cada passo meu tem o feitio de um novo desafio.
Talvez por esse saldo devedor é que elas, as ideias, nunca se liquidam. Restam sempre cobranças, créditos arriscados em resultados incertos e saldos de amor a conferir. Existir não tem garantias, pensar pode ser perigoso.
A violência do ar penetra as narinas da vida, é preciso resistência.
Contra o tempo não há freios de decida, para o passado não se treina.
Isso me faz crer que estou eu mesmo, correndo risco de vida.