Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

sexta-feira, 20 de março de 2015

Impressões

Vik Muniz: Impressões

Cada passo que conquisto
faço disto o meu espaço.
No tato sensível do piso
reviso o que  é um improviso
em mim mesmo, e me refaço.

Meus olhos jazem sorrisos,
são os avisos dos seus reparos.
De muito ou de pouco caso,
de bom ou de mal juízo,
fazendo-me, assim, prévio aviso
de seu gosto pleonasmo.

Se pareço ser impreciso
ao seu olhar ignaro,
por não ter placa ou aviso,
por isso é que eu sou tão claro.

Ninguém me ganha no grito,
ninguém me leva num laço.
Quando pensam que sou liso,
abrasivo é o meu mormaço.
Trago num gesto conciso
o que não economizo,
na amplidão dos meus lados.

Assim é que eu vou amigo ,
refazendo o que sou estrago.
Quem não entende o que digo,
não colhe de mim abrigo
nem saberá dos afagos.







quinta-feira, 5 de março de 2015

Finitude ( Olhos nus)

Fotografia- Walter Firmo


Sei que não houve muita infância, estava ocupado com as vicissitudes, coisas adultas que vieram antecipadas, mas não por vontade própria; O instinto de sobrevivência tem domínio maior.
Também não tive a pertinência, no que concerne  a ser adolescente. Quando essa fase chegou, já estava sério demais , estava amadurecido antes do tempo, por efeito estufa.Crescer rápido nos torna exóticos e insignificantes, uma personalidade inadaptada à história comum.
Como adulto versejei senilidades. Senil, virei o senhor do que é meu rosto, essa escultura vincada, de inverno e calor. Foi o que formou meu gosto inadequado à pressa desumana.
Como senhor desse destino procuro agora o menino, mas já não houve!
Não se repõe tempo passado, inútil desatino, pois Kronus come seus filhos.
Serei inacabado sempre!
Minha história toda tem as partes embaralhadas, como cartas fora do lugar, comum também ás minhas ideias. 
Das ruas aonde andei, eu me fiz mais pura cria urbana, sou criado da necessidade.
Homem feito à face da minoria. Que é essa minha história, essa é minha poesia, buscar uma lógica harmonia dentro do universo das diferenças. Isso é a mais assustadora inquietude.
O tempo deserda a idade na sua passagem mais profunda mundo a fora.
Depois fica consolidada a memória, com suas fissuras e mutilações existências no inesquecível entre vencedores e vencidos.
Elas ocupam o lugar histórico, compõem feição, fisionomia salgada de suor.
Por dentro de um mar aonde nunca houve calmaria, o tempo faz morada de finitude guardada, lá na arrebentação.
Vitória é conseguir a achar alegria enganando a tristeza, essa tão alérgica senhora.


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Maraca tu

Fotografia- Moçabonitanônima

Vem cá meu bem enquanto o chope gela,
o que é que tem vem cortejar o Gebav...
Sai desse aterro e vem rodando a saia
Vem meu amor, de tomara que caia.

Vem cá meu bem enquanto o chope gela,
o que é que tem vem desfilar no Gebav...
Maracatu é um baque de nação,
Vem coração, não vai me deixar na mão.

Vem cá meu bem enquanto o chope gela,
o que é que tem, vem cá  sambar no Gebav...
No carnaval o estatuto é liberado,
levanta a alfaia porque o baque ta virado

Vem cá meu bem enquanto o chope gela
O que é que tem, vem cortejar o Geba....
Vem meu amor com a caixa e o  gonguê
 vou levantar o estandarte pra você.

Vem cá meu bem enquanto o chope gela
O que é que tem, vem cortejar  o Geba... No corpo quente o maracatú se integra       Vem meu amor vem cortejar o Geba...
 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Saideira ( Perna bamba é do samba)

Caricatura do João Nogueira-Batistão

Desse tempo emprestado de alegria,
ando desocupado, pelas beiras.
Afastado das virtudes da folia,
vejo a vida desfilar pela janela,
tão alegre qual as cores da Portela,
e  eu aqui desprovido de valia.

Mas que não seja isso o que me inteira.
Tudo muda com sopro de ventania.
Se recordo o poeta João Nogueira,
dos seus olhos de fogo me vem a luz.
Minh'alma respira o ar de Madureira,
bem pertinho estou de Oswaldo Cruz.

Entrosando a palavra com a bateria,
aonde o samba se bole pelas cadeiras.
Sou movido ao sabor da gabapentina.
Mesmo não sendo isso o que eu queria.
Beijo o ouro e o lilas do Simpatia,
como quem beija a boca brasileira.

Vejo o samba passar por minhas meninas
cuja festa há de varar quarta-feira,
Vivermos, aqui, será o que se destina...
No cortejo popular da brincadeira.
Nesse enredo invoco minha auto estima,
num chopinho Cervantes de saideira.

Se essa é a nova serpentina do meu salão,
Deixa falar é o carnaval que me sublima,
ela é a euforia que tenho às mãos.
Se o corpo não vai ao bloco, o vai a rima,
deixo aos moços o Pierrô e a Colombina,
e ao poeta desfilo um samba canção.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Tandrilax (Perna bamba é do samba)



Há pouco sorriso no caminho,
como o cavaquinho já falou.
Solidão, por força do destino,
faz de todo o tempo um céu sem brilho,
é luz negra em palhaço do amor.
A mulher quer sempre ser feliz,
seu desejo em mim já não se faz.
Meus cabelos brancos de aprendiz
mostram minha historia visa à vis,
quando eu for saudade, serei paz.
Já não sei o sol, tão pouco a lua.
Rugas no meu rosto em tanta dor.
Meus pés falseando vão à rua,
e a realidade fica nua,
sem a fantasia e o esplendor.
Eu só tenho o pranto do poeta.
Os meus braços já não sentem nada.
No meu horizonte não tem reta,
um vazio em mim se introjeta,
bebo à solidão da madrugada.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PODEMOS ou não ( Banguelê)

Fotografia GGR
.
O jovem precário vai às ruas,
deteriorado dos direitos seus.
Sai por aí, sentando a pua,
buscando o que a nação não o deu.
Suas efetivas demandas são reais,
e as leis abstrações, nomenclaturas,
na pulsão mais movediça do plebeu.

Se as leis são ilusões, tem que haver cura.
Enquanto abstração, palavra fluida,
sem regulamentos, são banais.
Degradando a massa sem cultura,
negando-lhes sempre mais e mais.

A troica paranoica quer seu Braz,
canta e decanta tudo o que não atura.
É a ineficácia dos direitos nacionais,
com a base da pirâmide não tem curva.
Considerando a todos marginais,
ostenta os dotes patrimoniais,
com a falta de decoro na Res pública.

Aos impostos seguem sempre desiguais,
resumindo a revolta aos tribunais,
Tendo nos policiais tanta ternura.
O sub emprego só restringe tais direitos,
erigindo o que a elite mais queria.

Como um pais que quase, quase não tem jeito,
distribui custos e reprime a gritaria.
Nessas tenções grita o fato, mais que o guia,
assim segue o Brasil pais por seus proveitos.
com a renda curta e os lucros multi tropicais.
Pimenta é gás e na borracha vai com o peito.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Etnocêntrico ( Olhos nus )

Grafite: Os Gêmeos

O homem sem referências tem que se abraçar às sombras.
Equilibrar certos, os ombros, para cumprir uma história.
Isso produz um convívio entre maturidade e ingenuidade,
provocado pelos experimentos e as  expectativas sem memória.

Sua Memória pública fica desguarnecida, tênue ou ausente, nas sobras.
Nessa exclusão saltam os guetos, templos aos preconceitos da cidade.
O homem sem referências se re-significa, no adverso dos escombros,
entre todos os fragmentos acolhidos data a solitária vivacidade.
Matéria com a qual se institui e se restitui dos tombos,
formando unica e incomparável a personalidade.

Mas o ser humano é gregário, se assusta com o que é único.
Sendo assim, sem a luz do farol da inclusão
resta, ao incomparável, um guerrear púnico.
Por sobrevida a resistência avizinha o lúdico,
mágica guia seleta, entre esburacados passos ao longo.
É a realidade dos caminhos e do coração!


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sujeito objeto



Agora o peso do corpo exerce o domínio.
Fascínio é a ideia, no tempo, vizinha da paixão.
Represado em limites, os músculos só desafinam.
Trafegam sem rima destoando os pés, o tropeço e o chão.
Mas se o tempo, senhor de mim, me fez seu desatino,
se destino virei, faço eu mesmo objeto e regeneração.
Todo lento, devagar, devagar, devagar, devagarinho...
Num carinho que possa trazer-me por rota alguma solução.
Eu comigo, sou o atributo do equilíbrio ausente.
Desconhecido do meu próprio corpo, meu sozinho,
na nudez do desejo, de noite, de rua, de amor e de taça de vinho.
Desespero um sorriso de humor, que gargalhe da dor simplesmente.
Quero de volta a torta visão que me fez desde antigamente;
No esquerdo do peito, e no abraço, da trêmula mão, o caminho
desentrave em mim a barreira, e me devolva ao precipício da razão.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O extremismo no circo da alma

Montagem com CHARLIE HEBDO

O Extremismo, no circo da alma,
tem origens milenas e agressivas;
Na humanidade forma amálgama,
sinistralidade sem muita esquiva.

A parcialidade é musa nociva,
mostrando o como a vida não é alva.
O radical nunca é um homem livre,
pois está preso à ortodoxia.
Repete a noite e não sabe o dia,
no seu labirinto volta aonde estava.

Sendo único o reflexo de como vive,
se as crenças são provas dos nove,
na matemática kalashnkov,
aqui, Ali e Alá o desative.

Somente a existência há que se comprove;
E nenhuma ideologia pode ter xerife.
Se é a liberdade o que nos move,
seja a igualdade um fundo sem glose,
e a semente da fraternidade nunca um esquife.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Folia de Reis ( Banguelê)

Acrílica sobre cartão preto- Brasilfolclore.hpg
Tambores rufando as peles, passam os garbos sobre as ruelas.
Na memoria da infância de pedras toda lembrança do que já não sei.
A história segue, soltam- lhe as pernas em seu um cortejo, hoje, é dia de santos reis.
Senhores, toquem suas violas, fole em sanfonas, mil talabares, cores, couros e platinelas.
Vibrem as cordas, Ternos da lira, louvem na vida o que eu não salvei.
Tragam as rabecas, e os reco-recos; Paramentados, tradição mantida.
Coro em catira, peçam a mirra mais caipira por tal gratidão.
Embaixadores, mestres da festa, digam a seresta de toda grei.
Venham bandeiras, mui respeitosas com seus alferes cuidando delas.
Tempos festeiros, tempos pandeiros, querem dinheiro para a nação.
Mas o diabo sempre aparece em meio à prece, com o Bastião.
Tem poesia no mestre ajudante, bem elegante dentro do fato.
Tipe e Retipe, mais Contratipe,num picnic cantam no ato.
Não há mulheres nessa folia, suas alegrias cobrem janelas.
Tudo termina no improviso, e em reboliço, segue a função.
Com alegria e sem muito a viso, seguem altivos, e lá se vão.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Desforra ( Beco da fome)

Para Marta

Aquelas jabuticabas frondejantes,
com os caules revestidos em negritude,
floriam brancas flores, qual gigantes,
plantadas de alegria e altitude.

Toda a virtude, das arvores doces,
traziam ao farfalhar do tempo infante.
Ceifadas, desfolhadas, as elegantes,
ficaram só memória, e acabou-se.

Por conta dos tijolos e das paredes,
telhados como muros habitantes,
que vivem do progresso seco em sede,
contêm brutalidade impressionante.

Agora quem por lá passa, não sabe,
o quanto ali viveu tanta aventura.
Sobrou a cara dura da cidade,
de pedra, de descarte e de  clausura.

Desmata esconde na sua conjuntura,
amarras de uma história inacabada.
E a natureza perde em sua altura,
abaixo foram as jabuticabas.

A quem só vê no vento a cor do agora.
A lápide é a virtude, mesmo errada,
e as árvores tão sábias, tão senhoras,
nas tombas ignaras viram toras.

Com elas foi embora à luz dos tempos,
um outro tempo, o feito de outra hora.
Aqui chora o poema num lamento,
Pois a lembrança é  um tipo de desforra.






terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A dependência no circo da alma

                               Intermingling- Kandinsk

A dependência é um muro alto
para as exigências mais  básicas.
A sua natureza pode não ser mágica
para a existência, só um desfalque.
O hiato de viver não é atitude sabática,
é sim, o desvendar de coisas trágicas.
Por mais que se esteja incauto,
sob o céu azul do cobalto,
ou que a trilha seja errática.
Os fatos têm carne enfática.
e a dependência é antipática.
Há que se suprir do fácil,
descortinado sem palco.
O dependente, esse ilustre fidalgo,
ao não saber a gramática corporal,
em qualquer passada lunática,
desatenta ou pouco prática,
produz marcas em seu tátil.
É o corpo nos dizendo algo:
_Ah! Como a vida é frágil!

sábado, 29 de novembro de 2014

Apanhei de ovo frito ( 0 beco da fome)


Essa é para quem é Mané.
Até de ovo frito apanha.
Vou ensinar como é
o filét do Oswaldo do Aranha.
Vai impressionar a mulher.
Quem não a tiver, uma ganha.
Comer gostoso em talher,
Pois vou lhes mostrar a façanha

Precisa gostar da carne,
a boa é um filet Mignon.
Maciota, sem alarde,
Para comer é tão bom.
O corte é um bife alto
no modelo de chorizo.
Como a riqueza de Fausto
alarga qualquer sorriso.

Mas antes vêm as batatas,
cortadas à portuguesa.
Fininhas bem delicadas,
enxugadas, fritas e secas.
Também o alho laminado,
dourado, mas sem queimar.
Reservado em tanto farto,
vão dar gosto ao paladar.

O prato é coisa rica,
é uma tradição Carioca,
vem lá do Cosmopolita,
mas tem em qualquer birosca.
Prestem atenção meus amigos.
Concentrem, a ideia foca,
não vão se prender no visgo,
agora vem a farofa.

Manteiga clarificada,
não pode queimar jamais.
Juntar azeite é a sacada,
pois é assim que se faz.
Bacon, o bom venenoso,
bem pouco, para a saúde,
pois o danado é gostoso,
e artéria não tem virtude.

Suar cebola em cubinhos.
Um alho, e Jalapenã.
Também do reino, um pouquinho,
para não faltar em pimenta.
Farofa não tem amarras,
tudo vale é tudo pode.
Um pouco de alcaparras
vai ao gosto do bigode.

Picado vai um tomate,
rúcula rasgada a mão,
azeitonas pro arremate,
sem caroço à dentição.
Uma xícara de chá, padrão,
carregada em farinha crua.
Mexam, mexam, meus irmãos,
pra cozinhar com ternura.

Agora é fundamental
dois ovos, quebrados antes.
Corrijam o gosto do sal,
coisa muito importante.
Aqui ponho a banana,
ela entra sem censura.
Faz da farofa uma dama,
com a minha assinatura.

Peguem um pouco de arroz,
desse que tenha sobrado,
para ser usado depois,
replicante em outro prato.
Finalizando o serviço,
a cebolinha e a salsa,
para comer sem juízo,
como quem ouve uma valsa.

Na montagem cada prato
deve conter a beleza.
Os olhos comem de fato,
a carne, essa realeza.
Dediquem muito carinho
no serviço à la carte.
Um Cabernet é bom vinho,
harmonizando com arte.



















domingo, 23 de novembro de 2014

De menor ( A puta me contou)

Serigrafia: Juarez Machado

Perdi meu homem, assim,
na disputa
Fui procurar no jornal
por labuta
Sem ter o segundo grau
fui à luta
Pela criança topei
saia curta
Há quem me trate legal,
quem me furta
Sei esnobar no lençol,
fiquei puta
Levei porrada do cara
da justa
Falei que dói, mas ninguém
me escuta
Bebi mais um Red Bull
com cicuta
Só pra manter a atenção
na conduta

Topei cumprir a missão
la na praia
Agora entrei bem de linda
ordinária
Dei um doisinho, a bagana
era palha
Às vezes sou a sacana,
outra otária
Eu sobrevivo assim:
Candelária
Faço algum ganho no fim,
salafrária
Sou ninfetinha do rabo
de arraia
Foi sem querer, opção
necessária
Mas sobrevivo no fio
da navalha
Levo um din din, um capim,
sou primária
Meu top é tudo, é tomara
que caia.
Não aprendi, mas já sei
a matéria
Já fui obreira de cristo
com féria
Tenho quatorze, mas passo
mais velha
Pus la no Face outro nome:
Valéria.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Unidade multi ( Barril Diógenes)


Perder dois mestres em dois dias
é uma coisa muito doída
Vai na tarde a finitude, e depois é a vida.

Leandro me ensinou a pensar ao ser transformado.
Manuel, era mais sério, sabia fazer quintal, adubado
de palavras, perfumou meus olhos de pitanga.
Os dois eram una dialética da poesia.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma dose ( Barril Diógenes)

Fotografia: William Kentridge

Sou o que não há em mim,
não sou bom, não sou ruim,
vou alem, não sei pra onde.
O sonho que isso esconde,
é lavado em pedra-pome,
mil rasgos, eu sigo assim.

Se hoje o tempo está nublado,
sou o escuro, até pesado,
já não trago força em murro.
Algo dentro esta maduro
impreciso em tanto acuro,
sigo alerta e preocupado.

Quebro o muro em Berlim.
Sou eu mesmo em estado quente.
nem hilário nem comovente,
nem revoltado  em Pequim.
Sei que sou o olhar nos olhos
Insano ensejo senhores,
meu silêncio destrincha vozes,
sou  o extinto em botequins.
Eu sou mesmo tenebroso;
Sou o susto, sou o gozo,
o perigo e a cirrose.

Meu terreno é arenoso,
em razão e em psicose,
o periférico nervoso;
Curvado à realidade
possuído da saudade,
Sou um atributo da gnose.
E ao fim, sou ton-sur-ton,
sou amigo do garçom
e me destilo em uma dose.











domingo, 2 de novembro de 2014

Os fatos no circo da alma

Manabu Mabe

Os fatos, no circo da alma,
não têm gás paralisante.
Nos seus músculos inexatos
ressaltam os beijos dos atos,
num descarte deselegante.

O destaque mais provocante
quebra o salto na avenida,
e o ar que respira é a vida,
ocupada na sua própria lida,
em suas horas mais ofegantes.

Os fatos, no circo da alma,
deixam nos ossos desgastes
de cujas paredes resgates,
se avincam quaisquer semblantes,
no afogadilho do trauma.

Salvando o que pode ou pôde,
como andarilho errante,
se descobre, o itinerante,
que a vida ferve na calma
do que será sempre o hoje.



domingo, 26 de outubro de 2014

Natureza quase morta ( O olhar da carranca)


Quando o importante é sobreviver, pequenas coisas, pequenas atitudes ganham valor inestimável; Uma fruta sobre a mesa, imprecisa, a ser descascada, a força sensibilidade perdida, precisa achar uma solução. Aonde a naturalidade é agora o impossível, a laranja é no momento só o olhar, silencioso, solar, brilhante, impassível sobre a mesa. Exala um perfume explosivo, entre  o desejo, esse olhar e o tato.
A textura reluzente e a frutose contida ficam mais exuberantes e explosivas.
O interior de carne é  fibra imaginária adocicada intimamente, sua pele lisa e nova externa o interior. Carne desejada entre os gomos, entre os lábios a maciez de dama, cujo hálito cítrico entra na língua, entre os dentes  há sedução de açúcar desenhada em palavras.
Simplesmente, nesse querer, se instala a impossibilidade, em crua casca rude escamada na nervura da cor inexplicável do fato realidade, o mundo fica no que é  inalcançável pelo inexpressivo das mãos.  O perfume prazer é uma ilusão fotográfica em três dimensões. A frágil armadura imóvel, impávida do impossível.
A faca, a falta do toque, o corte, o sangue, a ausência de dor aonde há ferida.
A pequena palavra desconectada do cérebro, a mão esquerda move apenas insensibilidade, um rasgo no dedo indicador é quase nada.
A mão esquerda é seda, a mão esquerda é a sede, Mas cede sua própria má sorte; E a laranja é dia, a laranja em sua solidariedade de sabores repousa insólita sobre a mesa.
A pura sobremesa radiante e tão composta, circunferência de alto valor e caloria circunspecta em quietude.
Aqui estou eu e ela, aqui eu e ela juntos à janela azul do céu, essa cobertura inabitável. Agora glicose azul, agora a laranja é o inacessível,  ela é seu próprio erro de sabor, agora ela é o inabalável de minha dor. A laranja de cera, de beleza intocável, a laranja mecânica e seu suicídio imaginário, jamais a verei nua, jamais tocarei sua carne brasa, aqui a tortura e a vitamina comum , aqui você e eu, aqui a idade avançada e a juventude com seus riscos de endorfina guardados e incalculados no corpo.
Juntos, se afagados, libertaríamos o sumo que se espalharia invasivo sobre a casa; Mas, o lado esquerdo dorme. Só e o braço direito é vigília, e a observa desatenta sobre aquele lençol quadriculado. O desejo se instala como quem transpõe  a última porta. Sou eu, sou meu abdômen, saliva é o meu corpo de homem; E ela tonificada em energia, ela desinibida imagem da natureza, ela inapelavelmente quase morta.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Tucano de paletó ( Perna bamba é do samba)


O candidato deu
aquele sorriso amarelo,
dizendo pro pé de chinelo
que a vida vai ser um brinco.
Mas é que ele se esqueceu,
de fato de ser sincero.
Malandro no lero-lero,
papo torto quarenta e cinco.

Com uma pinta de bonito,
tinha olhar de matreiro,
no nariz trazia um cheiro
que o deixava bem aflito.
Dizia ser solução,
mas era um boquirroto,
Sujeito quase escroto,
parecia vendidão.

Bicho selvagem tucano,
em plumagem de gravata,
tem linguagem de bravata,
tem paleto de urbano.
Alimenta o próprio gosto,
de caráter leviano,
de madeira tem o rosto,
mas falta-lhe mais tutano.

Pensa que leva o povo
só no gogó da Jurema,
falseando faz a cena,
da serpente traz o ovo.
Mas o povo tem antena,
seu próprio discernimento,
não quer coisa tão pequena,
não vai permitir tal intento.

Acordar defunto morto
de outras legislaturas,
construir aeroporto,
em terra sem prefeitura.
Todos sabem quem ele é,
vai perder essa contenda,
vai apanhar de mulher,
com maria da penha se entenda.







quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Art nouveau ( Barril Diógenes)

Nature morte au vieux soulier 1974- Juan Miró



O fim do filme,
no fim da noite,
do fim da festa,
do sorriso que resta,
de festim, do amor.

Duas quadras,
é só isso,
e finda o mar
no fio da farça.
O corte ouriço

No corpo, o corte,
pressente a morte
do sol que eu não sou.

Então pergunto,
medo Art nouveau:
__O que foi doutor,
que de mim é o susto
que me sobrou?