Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

sábado, 20 de outubro de 2012

Arco do tempo no circo da alma

Fotografia: Sequencia - André Cameron

O arco do tempo faz a memória
hereditariamente per si.
Excluindo quem dela é notória
deselegância  ao existir.
A conta final dessa história,
a qual vivemos por reproduzir,
nossa genética arbórea,
cujo Genoma nos diz
que uma sequente vitória,
codificada em diretriz,
faz da vida compulsória,
guerreira qual flor de lis.
Cuja única trajetória
nos destina a ser feliz.

Mas sendo contraditórias
as forças da realidade,
às vezes tem palmatória,
vem o dragão da maldade.
Não basta jaculatória,
Preciso é tenacidade.
Vivemos sem moratória,
o predestino é a senilidade.
Ao juizo é a declinatória
da Juventude na eternidade.
Por força eliminatória
uma e outra se invadem,
e essa luta por glória
nos destina à felicidade.







sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Fome de ser ( Olhos nus)

Fotografia: Quimera olhando Eiffel- Gabriel Martins


Você tem fome de ser
um boque de belas cores.
Mas quantas e quantas dores
compõem de fato você?

Nesse perfume de flores,
comum a um cara, o que
um comercial de TV,
compõe nos seus bastidores?

Você não sabe o prazer,
de refazer os valores,
à luta dos estentores,
na voz que fala o sofrer.

Pareço mesmo uma fera
A monstruosa Quimera
das ilusões, são janelas,
pintadas em aquarela,
No coração de quem vê.

Quando seus beijos são lágrimas,
causadas assim tão cedo,
fotografo em mim o seu medo
de um vacilo matinê.

Não há lugar para lástimas
não cabe nenhum segredo
que se aponte com o dedo,
a um solitário Zabelê.













sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Corações e mentes. ( Banguelê)

Fotografia: Segurança em Manguinhos- Roberto Moreyra - O Globo/ 10-2012 

Abstração:   Operação intelectual por meio da qual se separam, apenas no pensamento, elementos ou aspectos de uma totalidade que não podem subsistir isoladamente. (Dicionário Aulete Digital).
...
A vida é em si mesma um absurdo, a natureza dela, pelo que se saiba até o momento, é privilégio do planeta terra. Agora, com ela se organiza é uma outra história.
Sendo gregário o ser humano se socializa para sobreviver  e exercer a mais importante tarefa que a natureza lhe confere, que é a reprodução da espécie.
Nessa organização social uma superestrutura se faz necessária, aonde as regras e ideais também são produzidas e reproduzidas seguindo as necessidades do grupo social a que se destinam.
A mais bem elaborada ideia , ou menos ruim forma de se organizar conhecida é a democracia e seu conjunto de preceitos e regras de convivência de um povo.
Mas, é importante salientar que sendo um atributo do plano das ideias ela não existe fisicamente.
Ninguém jamais a viu atravessando a rua Delfim Moreira vestida para ir á praia pegar um sol, O seu corpo escultural jamais foi observado de biquini jogando altinho na orla de Ipanema, nem tão pouco jamais alguém viu esta suposta senhora que por definição tem origem na Grécia, vestida com trajes de turista fotografando as ruelas da Comunidade do Pavão- Pavãozinho, agora oferecida nas agências de viagem como roteiro turístico Carioca.
Parece óbvio que isso não ocorra, Mas Porque?
A resposta também é óbvia: A democracia tem seu corpo na escultura das idéias.
É uma Abstração humana, Ocupa um lugar nas Ideologias, a saber, no pensamento.
Mas para que a sociedade possa viver essa abstração precisa, como qualquer bem, ser produzida e reproduzida de acordo com o grupo social a que se destina.
A forma mais refinada dessa reprodução se da na organização de uma outra abstração, o Estado.
Este não é diferente, também ele não é visto atravessando a rua a caminho da praia no posto nove de Ipanema, como não é visto em certas comunidades pobres ainda reféns da violência e do poder discricionário do crime.
O Estado nada mais é que uma forma de aparelhar o grupo social a que se destina para manter domínio e controle de acordo com interesses de produção e reprodução da vida de forma determinada.
Quanto àquela moça escultural jogadora de altinho, ou a velha turista Grega chamadas, ambas, Democracia, podem também elas não serem tão belas ou idosas quanto imaginamos, podem se apresentar mais feias, mal vestidas, pouco atraentes e até fardadas, e ou armadas, para o confronto em litígio.
A democracia esta mulher invisível, e o estado este Deus poderoso, na verdade são organizações humanas com especificidades que refletem o grau de reconhecimento que um povo tem de si mesmo.
Quanto mais agregado, quanto mais solidário, quanto mais educado, quanto mais participativo, mais cheia estará a praia aonde a musa Democracia vai se banhar, ou aonde essa senhora caminha com maior ou menor desenvoltura.
Quanto ao poderio do Estado, este se organiza de forma a atender aos interesses de quem? Como instrumento de força, vai dar significação às necessidades  sociais às quais representa. A pergunta que aqui se faz é: Quais são?
Se uma comunidade social se agrupa sobre o guarda-chuva da violência, se a nossa musa se apresenta mal trajada, acanhada, ou tem hábitos pouco sociais, estará ela encarcerada em dois tipos de habitáculo, a se observar:
Ou enclausurada em palácios, guardados por grades, excluídos em condomínios de elites, clubes fechados, carros blindados, e guardas, e regras, e insegurança, e guetos, num regime disciplinar diferenciado, ou na outra ponta estaremos diante de uma multidão de  excluídos não cidadãos, também enclausurados em comunidades sitiadas por milícias ou  em presídios, e regras de convivência mínima, e disciplina controlada pelo estado poderoso e indiferente, organizado por conveniência.
São dois pesos de uma mesma medida social, que se vigiam e se punem de modo  violento, e regras de agressividade brutal, assim de algum modo se completam.
O ideário dessa organização é a desigualdade, é a violência que assim se reproduz alijando como descarte humano aqueles que não são necessários à primeira vista, mas de fato estam contribuindo para o barateamento da mão de obra em ultima instância. São responsáveis pela desqualificação do trabalho e pela distribuição altamente concentrada da riqueza material.
A forma como isso se da ?  Esta intimamente ligada à correlação de forças que irão se espelhar na produção de leis. leis essas que serão aplicadas para atender a um maior ou menor grupo de poder, em maior ou menor peso, de acordo com as forças de interesses a que compõem.
Leis casuísticas não o são por acaso, ou incompetência de juristas ao produzi-las. Há quem diga que o acaso não existe.
Descaso social com suas variantes também não é coincidência.
O crime e o castigo são primos entre si, e se correspondem na frequência da organização  de um povo que se pauta não por sua inclusão, mas por sua exclusão. As diferenças de um regime reproduzem seus danos, as vezes de forma irreversível, em corações e mentes.







quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Hora tércia ( Banguelê)

Fotografia: Camões...-Tânia Almeida


Já se viu numa situação dessas?
Como se o mundo virasse ponta cabeça,
e a gente vivesse às avessas ?
O Talibã financeiro executando a Grécia.
Enquanto Cayman solar recebe outra remeça.
Um gol no Maracanã vai nos tirar da inércia ?
Não sei onde isso vai dar, nem bem aonde começa.
No flamboaiã Paqueta? No Aiatolá lá da Pérsia?
Se alguém quiser lá orar, deve se virar à Meca.
Morrer no jardim de Alá, aonde o Torá não versa.
Os clãs do mundo são o limo, são o destino da mércia.
O peixe que está no mar será a futura Muqueca.
Água de ser, camará, leio em Camões na hora tércia.







sábado, 6 de outubro de 2012

O olhar da Carranca ( O olhar da carranca)


Fotografia: olhar da Carranca-Ricardo Araujo

 Depois caiu a noite. No lusco-fusco da orquestra tocando Solamente una vez Pedro leiloeiro bateu o martelo, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, Vendido,  na existência roubada como cabrito assado enfeitado em laço e celofane na quermesse de paróquia dos preconceitos que viriam, era o começo de uma história.  Ele vai dizer que não, nenhuma história fica pronta ao ponto de findar lembrança, isso lhe bastava por tudo que já não havia escrito, no mais  a cerveja perdia espuma no balcão.
Frei Leto lhe vinha à memória com o colorido de seu sarcasmo franciscano e sua fisionomia jovial de Fradinho do Henfil.
O frade foi a primeira observação de que era possível viver com bom humor diante de dificuldades, o frei era feliz.
Ele se lembrava dos primeiros movimentos para superar a timidez, para recriar  condução própria, tinha um caminho rumo ao mar, havia muito que aprender a andar, pois o Porque se faz é andando.
Enquanto a tarde morria, a nova classe média funcional passeava pela calçada esburacada de pedras portuguesas, na esquina da Duvivier com a Barata o universo cosmopolita girava em tour.
Na banca de revistas o sol e o vazio dos leitores modorrava.
_Ai de ti Copacabana! Ele pensava.
Depois do terceiro gole pousara o copo americano na bancada, e no silêncio interno de si mesmo,  deu-se conta de que o tempo havia passado.
Já a muitos anos o Expresso Sayonara dobrara a esquina e contornara a praça Coronel Ramos rumo à estrada da memória, ao pó avermelhado do destino.
Chegada a hora de fazer o balanço geral dos sonhos nas contas da realidade, essa soberana implacável já reinara tempo bastante a se haver contar.
A vida se agrisalhara e a hora era essa, Ítaca sera passado, essa memória iluminada à luz de velas.
_Olha a vela...
_Olha a vela...
_Orai vela...
Serpenteava a procissão, enquanto os bolsos iam se enchendo com o peso das moedas. As notas miúdas daquela gente devota, também ela miúda e fervorosa, abasteciam a franzina fé financeira do menino. Eram os sonhos de brinquedo.
Enquanto a banda soprava um bombardino fúnebre e o surdo respondia com a dor das desumanidades, ele faturava sua própria infância mercantil.
_Olha a vela...
Diante da desventura do senhor morto, a alegria das primeiras mercancias era evidente naquele infante sem trono, sentia-se um gigante sem prumo.
Ele era diferente, haveria de o ser por toda a vida, estava descrito, era inevitável. Chamava atenção quando não queria, trazia a indiferença dos olhos na pele, nos passos, até nos ossos. Mas havia a esperança, a tecelã de todos os futuros.
A noite ardia à parafina.
_Senhor tende piedade de nós...
Como contar uma história cronificada de experiências e tentativas? O incerto fica encrustado por sobrevivência no inconsciente.
Como trazer o caminho à memória?
O apito do vapor aportara sua carranca trazendo rio acima a Bahia, Pernambuco, o Nordeste, a fome pendurada por cinco dias de farinha, de rede e lenha das caldeiras.
O burburinho geral no cais perfumava à boas vindas diante dos seus olhos.
Alguém haveria de chegar, algo haveria de acontecer, mas quem? O que?
Aquela gente morena, cansada e altiva, era tudo.
Subiam as barrancas do Chico buscando e trazendo vida, buscando e trazendo histórias, buscando e trazendo desejos. Eram pescadores, eram canoeiros, eram lavadeiras nas pedras, eram as lembranças do sabão Tingui, era o Brasil profundo, era ele, o próprio, trazendo na proa dos olhos o olhar dado das carrancas...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mergulho ( O trago da seda)

Fotografia: Quase pronto- Antônio Soares

Não se expõe ao ridículo?
Não tropeça no acaso?
Nunca trocou um passo?
Nunca pagou um mico?
Nunca foi um palhaço?

Nunca queimou o filme?
Nunca perdeu razão?
Jamais errou na mão?
Há algo que o desafine?
Quem não perdeu ilusão?

Quem nunca cometeu gafe?
Nunca deu maior mancada?
Quem nunca cai na cilada?
Quem não sofreu xeque-mate?
Quem não entrou na roubada?

Quem nunca pisou na bola?
Nunca foi um desastrado?
Quem nunca foi questionado?
Quem nunca disse e agora?
Quem nunca foi o culpado?

Nunca falou uma bobagem?
Quem nunca desdenhou fé?
Quem nunca foi um lelé?
Quem nunca manchou imagem?
Quem nunca falhou até?

Quem é total e desperto?
Sem um vacilo qualquer?
Quem é maior que Javé?
Ou é normal tão de perto?
Quem nunca caiu dos pés?

O erro é o pai do acerto.
Salvo o menor engano,
meu caro amigo fulano,
o ser humano  é conserto,
e o mundo é a falha do plano.


sábado, 29 de setembro de 2012

Poema do erro no amor ( O circo da alma)

Fotografia: Macrofotografia vs  soneto Vinícius de Moraes
Epígrafe do Poema dos olhos da amada de Vinícius de Moraes
.
Ah! Minha amada
que aos olhos sofreu.
Procura verdades
trocando metades,
como indo a Deus...
Tem desesperanças,
na contradança,
por erros meus...

Ah! minha amada
Não sou fariseu
Se acaso não sabe
a calamidade,
o desastre, sou eu.
Tão velho e criança,
quebrei confiança,
no que aconteceu...

Ah! minha amada.
Se o cristal rompeu,
abriu-se a cratera
na flor mais bela
do nosso apogeu.
O sal sobre a terra
sobrou a quem erra,
e o erro é meu...

Ah! minha amada
não me diga não.
Se todo o desgosto
distante e torto
te fere a razão.
Fiz triste seu rosto,
de alma e de corpo,
eu peço aqui perdão...




terça-feira, 11 de setembro de 2012

Prato cômico ( Beco da fome)

      Fotografia: Laranja mecânica- Telmo Ruy Fernandes

Não é caldo de galinha, não é Canja.
Não é nada que se sirva no almoço.
Mas tem casca, sem semente ou caroço.
Se parece mas não cresce igual toranja.

Não se pode definir, não há um laudo,
que nos diga se é bolo ou se é doce.
Eu não sei como  surgiu ou quem o trouxe,
Mas eu sei que é gostoso e tem respaldo.

Tem a massa bem cremosa de laranja.
Pedacinhos de um queijo  derretido.
Tem três ovos que devem ser bem batidos.
O açúcar próprio, a fruta  nos arranja.

Junte a tudo uma colher boa de amido,
com três xícaras bem cheias de farinha.
Ponha sal, bem pouquinho, a pitadinha,
bata bem até ficar tudo unido.

Não se esqueça de juntar também manteiga,
duas colheres que é para fazer a liga.
Tendo feito, vá com calma, vá sem briga.
Não tem nome mas não é receita leiga.

Sendo bolo, doce, ou antropológico,
o que importa é o prazer que á coisa cause.
Aprendi ouvindo um blues da Amy Winehouse
não esqueço do fermento biológico .

Unte a forma com manteiga por inteiro,
polvilhando com mais farinha  de trigo.
Ligue o forno e  o mantenha aquecido,
com água quente dentro de um tabuleiro.

Nessa forma jogue então a nossa massa,
sobre o fundo de uma forma uniforme.
Tendo tudo isso feito, e nos conformes,
cento e oitenta graus e a coisa assa.

Quem puder lhe dar um nome gastronômico,
que o faça porque o nome lá não tem.
É saboroso, é saudável e faz tão bem.
Na receita mais parece um prato cômico.




sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Eu não vou desistir ( O olhar da carranca)

Fotografia: voo sincronizado- PPS

Os meus olhos trazem ao vivo
O que do mundo puderem olhar.
Observam teus olhos altivos
do universo da libido,
qual uma explosão solar.

Meus olhos estão contidos,
nos olhos que são os teus.
Meus olhos só têm ouvidos
para todos os mil sentidos,
de descortinar os teus véus.

Meus olhos não tremem sustos
com os barulhos dos céus.
Não fazem conta dos custos,
nem se escondem nos arbustos
das trilhas do mundaréu.

O amor que trago comigo
foi colhido no olhar teus olhos
neles colho meus sentidos
deles faço meus abrigos
nas tormentas dos abrolhos

Não temas medos antigos,
os vãos, as intrigas do tempo.
Estarei sempre contigo
aonde fores, a sigo
independente dos ventos.







quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Atenção ( O olhar da carranca)

Fotografia: Mau tempo, Bom tempo- Paulo Dias

Com a vida se passando, na escola do  simplesmente, é que pude desvendar em mim mesmo, aquilo que de mim não sabia; Pois dos outros tenho sempre a informação vencedora a título de realidade, é o aparente do mundo ao meu lado, nunca o velado.
Foi preciso acalmar assombros, foi vital soerguer escombros, foi legal aprumar os ombros e colher a minha própria solução.
Se a divergência é um universo, minha história é do caminho, do chão, sou divergente manifesto.
Foi preciso aprender a respeitar onde piso, para poder encaminhar mais acurada a atenção do que sou no tempo e espaço.
Foi com a vista se alastrando, com a força do destino, só assim pude laborar o acaso, me apoiando no então do improviso, foi assim mesmo, sem nenhum aviso.
Necessário foi, dissolver os grumos da vergonha instalada à revelia  do querer próprio, em água morna, para não encaroçar em ilusão, para não me queimar na fumaça da insegurança, foi pertinente ter opinião, ter atitude, Quebrar a ponta da lança com a minha ginga, com a minha dança, com a pulsação.
Meu tempo é de alegria, de não me afogar no caldo insossego e calado do mundo dos lamentos.
Foi com ciso que aprendi a tirar o guizo do leão do dia, foi com essa alegria, com sorriso, e com tesão.
Na vida é urgente ter peito para achar um jeito sem perder a mão, sem puxar o cão, sem fechar o coração; Nessa lida ponho os olhos nos olhos, ponho as mãos nas outras mãos, ponho corpo a corpo, e no amor presto muita, mas muita tenção.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Narciso S/A ( O circo da alma)

                                    Fotografia: Narciso-Brunna Guimarães


Escraviza-se no espelho
imaginário, sem o olhar,
no que se mantem de joelhos,
ensimesmado num altar.

Mas o escravo, por conselho,
não se espelha ao não se ver.
Nesse momento aparelho
sega os olhos ao prazer.

Num tal desvio, nessa onda,
flexiona o seu desejo.
Narcotizado, nessa lombra,
entorpece ao sombrear
a própria sombra,
em satânico cortejo.

Nas pedras paredes de Eco,
do erótico fulcro, o sobejo,
grita à ausência do objeto
tão aclamado, é um adejo.

Sendo o desejo o sabor
que se externa no alheio
no outro há de estar o veio
O doce e o leve do amor

Se a vida é de ser breve,
não se a perde em solipsismos.
Só narciso à imagem deve,
e a solidão é um abismo.
A beleza é uma tênue flor,
O tempo do amor é conciso










sábado, 18 de agosto de 2012

Um pão de Queijo e um beijo (Beco da fome)

                                                  Fotografia: Pão de queijo- Sandra Lapertosa

Vou dizer o que aprendi para aguçar o desejo
afrodisíaco souvenir, o afamado  pão de queijo
feitos por vovó Bibi, a quem de cá mando beijos.

Tem que ter três copos cheios alem da borda sem medo.
O beijo pode ser doce, mas o polvilho é o azedo.
Um óleo que já bem quente, a mais de um  copo, dois dedos.

Escaldada essa fécula com o calor do óleo quente,
deve-se também fazer, com outro tanto em água fervente,
para a goma então formar quase a massa eminente.

Pois que o bom sabor mineiro, seja o que se o aproveite
quem de água não gostar pode usar opção leite.
Uma colher vai de sal, que ao carimã se deite.

Observe o principal, que vem dar ao pão o nome
também é o fundamento do prazer de quem o come
Queijo Minas, Roquefor, Parmesão ou Provolone.
Mussarela, Emmental, misturado ou Mascarpone.
Qualquer queijo vale a pena para o tamanho da fome.

Depois disso vem os ovos, para início quebre cinco
No prato ou batedeira, bata e espume com afinco.
Junte tudo e mão na massa, nosso pão já vem surgindo.

Apalpe, amasse, aperte, use a força se quiser.
Sove, alise, deslize como em bunda de mulher .
Use toda a expertise, a massa pede, ela quer.

Depois, ainda batidos, mais três ovos e vontade.
Continue, mão na massa, até dar cremosidade,
dar leveza ao pãozinho, dar memória, dar saudade.
Para tal, ponha carinho, ponha amor, mas de verdade.

Feito isso não se esqueça de pré aquecer o forno.
Deixe-o quente, quente mesmo, ele não pode ser morno.
Pois se acaso ficar frio, a receita é sem retorno.

Prepare os tabuleiros para receber nosso pão
faça bolinhas esparsas usando as duas mãos
redondas ou ovaladas, a forma não faz questão.

Deixe espaço entre elas para haver crescimento.
ponha então tudo ao forno e dê tempo ao próprio tempo.
De vinte a trinta minutos sem abrir pra não ter vento.

Depois disso é a hora de retirar a iguaria.
Agora deixe ao descanso dois minutos na bacia.
Com café, suco ou chá, fiz o mimo pra Maria.







quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Aqui jaz Samba 1925-2012 ( Perna bamba é do samba)

                                                     Samba- Di Cavalcante 1925

O Samba tinha negritude.
O Samba tinha sol na saia
das femininas virtudes,
também de chapéu de palha.
No brilho a pele morena,
bem antes era toda nua,
o Samba ganhou a cena
nas roupas alvas e cruas.

O Samba era brasileiro
de corpos tão elegantes.
Pierrete veio primeiro,
22  e modernizante.
Antecedeu ao Pierrô,
sem ser menos importante.
Só depois Di Cavalcante
no Samba pôs azul cor.

Havia-lhe um sol maneiro,
pictórico no sabor,
tão mulato, tão inteiro,
cheirando a trabalhador.
À direita um violeiro,
ao fundo um estivador,
dois corpos luzem brejeiros,
são duas mulatas em flor.

Os homens sentados fitam
o que hoje é uma tristeza.
Fumaças ao fundo ditam
o destino dessa riqueza.
Queimada na intimidade
das coleções de cultura,
a irônica privacidade
do patrimônio é a clausura.

Na fuligem, no braseiro,
o azul virou fumaça.
Arquiva a Barata Ribeiro
mais uma ode à desgraça.
Perde um povo em ignorância,
as referências de laia.
nas paredes dessa instância
a relevância desmaia.

O Brasil perde altaneiro
mais uma peça notória.
Num destino traiçoeiro
O Samba virou memória
Do outro lado da praça,
quase de frente ao Metrô.
distante do olhar da massa.
a arte se suicidou.





domingo, 5 de agosto de 2012

Bolt

Fotografia- O globo

Zunindo como bala Colt
São pernas asas
Geniais de Usain Bolt
.

Silente ( Perna bamba é do samba)


Fotografia: Ausência - Inka


Ai como dói uma ausência  na gente,
como machuca um estrago de amor.
Quando eu trago um sorriso nos dentes,
tão somente evidente, escondendo a dor.
Se a alegria que vês é janela aparente,
tem semente em algo que machucou.
Essa festa do fim é dos quase contentes,
são as sobras frias e silentes de calor.
Como reflete esse espelho, essa lente,
mostrando o real fato no fino pente,
essa imagem restante, sem sal, sem sabor.
Nem de longe lembra as juras ardentes,
ai como dói esse fim comovente,
quando não se sabe sequer quem errou.
Nessa farsa em brinde o chope é quente,
quem saúda o ruim da paixão diferente,
quebra um verso onde a rima assim acabou.






quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Micróbio do Samba ( Perna bamba é do Samba)

Fotografia: Amor de Cavaquinho- PP de Almeida

Se o seu peito chorar baixinho,
com a sequencia afinada em Si,
vá nas cordas de um cavaquinho,
até a tristeza cansar, desistir.
Ouvir samba pode ser caminho,
para a vida voltar a sorrir,
no perfume sonoro do pinho,
um bom samba vai te redimir,
Cincopado ou no Miudinho.
No contágio maior da alegria.
Se o dissabor se tornar vizinho,
houver dor onde não mais havia,
deixe o samba assumir seus carinhos
melhor mesmo é cair na folia
e deixar o sofrimento sozinho.







Meia Boca (O olhar da carranca)

Fotografia: Verdades? Onde? João Zero


A vida como ela é,
pode bem vir a ser outra.
O tempo é uma porta aberta,
e o agora é coisa pouca.
Quem fala meia verdade,
guarda metade na boca.

Essa verdade encoberta,
se vista com acuidade,
silente,calada, quieta,
com face de coisa morta,
aparentemente incerta,
outra verdade denota.

Se uma parece incorreta,
a outra verdade é torta.
Uma na outra se infecta
numa atitude devota.
Se a primeira não despe fé
a segunda já pouco importa.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bifocal ( A olhos nus)


                    Fotografia:Escrevo sem pensar- Skarlath


Meu ramo de atividade,
agora sem gritaria,
é fazer da poesia
a minha realidade.
Sem menor leviandade,
sem falsa aleivosia,
me sirvo dessa alegria,
talvez por necessidade.

É capa pra ventania,
fragmentos em clivagem,
blasfêmia contra a heresia,
coisa de alta voltagem.
Descarga de energia.
É lente à visão miopia,
luz de sol meio dia,
outro jeito, outra abordagem.


Nela eu busco valia,
unindo minhas metades,
nessa verbal cirurgia
destilo afetividade.

Até quando não queria,
em minha adversidade,
de mim ela faz serventia,
quando me invade.

A palavra em libertinagem
Vem como a teimosia.
Causada por bruxaria,
silenciosa e em alarde.
O inconsciente a guia,
da corpo, contagia,
na forma e fisionomia,
retraduzida em linguagem.







segunda-feira, 16 de julho de 2012

Laço vivo ( A olhos nus)

Fotografia: Quando a vida é cor de rosa- MLSP


O mundo dos laços cor de rosa, trazendo a vida às sérias
de mim fizera à Tirésias, prever femininas vitórias.
Na força afeita à alegria mais sólida e luminosa,
muito mais forte se cria à mais saudável trajetória
Carcinoma é anomalia da célula indecorosa,
que perderá teimosia, sumindo na ventania
como a erosão das falésias, perseverando as Magnólias.
No mundo, os laços das Rosas desafiando a insurreta crise,
o refazer é uma expertise estampada em peito e prosa.
Em cada novelo de linha, em cada ideal de cuca,
uma coragem novinha se alinha à nova peruca.
Revisionando as histórias, fortalecendo as meninas,
em preciosa auto estima a vida vem valiosa.
Nessas mulheres guerreiras há uma cadência zelosa
de ternura em laço rosa, ventura em boa companhia.
Se vida é coisa venosa, perpetuante é a cura.
E em cada olhar leitura o movimento se entrosa
Pois quem aposta na vida jamais a vê perigosa.
Na força que está unida à bossa de ser gostosa.
A vida boa de briga é a mesma vida dengosa.
Abram alas na avenida de abraços aqui e agora
São solidárias queridas com soluções amorosas.
Em atitudes proativas as moças dos laços rosa,
que sigam sempre altivas, de suas vidas senhoras.





segunda-feira, 9 de julho de 2012

Na lata ( O trago da seda)

Fotografia: Da lata- O Globo 14-07-2012

Quando eu me chamar saudade
Ja não serei mais que uma data
A vida não tem estorno, nem errata
ao fim, a aventura real é inexata;
Sujeita ao ajuste impuro da liberdade
Se saudade for, não serei bravata saudade

Mas enquanto eu me chamar idade
não passarei meu tempo em casamata.
Trago na pele madura a textura tacta,
sem a forca de seda e nu de gravatas.
De  encontros é o meu caminho, minha verdade.

De tantas outras  pegadas se faz estrada,
tão múltipla, e tão infinita é a veracidade.
Se ontem fui levedura, hoje sou pura nata,
a cada nova ternura, ou cada bala de prata,
sou ácido e o meu carinho é grão Ciabatta.

Em poema um ruim o verso não desata
perdido no pavio e meio da casualidade
sincronicidade,em Jung, parece mesmo cascata
Alguma coisa que lembra o verão da lata,
inundado num mar de alegria e felicidade regata