Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Central do Brasil( perna bamba é do samba)




Grafite- Vermelhoqueimado


O trem na central tem lotação esgotada.
A porta se abriu,
Sociedade civil paga pra levar porrada.

O trem pegou fogo em Triagem
de novo
Transporte público não é bobagem

O trem de Japerí pegou fogo
de novo.
Queimou a paciência do povo

O trem queimou Saracuruna
de novo.
Pegou fogo na comuna

O trem descarrilou aonde moro
de novo
Bem pertinho lá de Deodoro

O trem do metrô também ganha fama
de novo
quebrou la na Uruguaiana

Descaso, abandono e muita tristeza
descarrilaram de novo
com mortes em Santa Tereza.

Outro descaso evidente reluz
O trem para súbito
antes de Oswaldo Cruz
.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Yang-yin(a puta me encantou)


Yin Young-2002-Dinho Fonseca


Primeiro você é amiga,
ai vem se dar para mim.
Depois então você briga,
vai embora, faz intriga,
parece até que é o fim.

Briga porque quebro barreiras,
supero preconceitos em você.
Quebrando-as, a faço inteira,
quer você queira ou não queira,
eu passo a ser um prazer.

Quando a conheço por dentro,
entro e saio, saio e entro,
reviro seu pensamento,
rasgando seu corpo jasmim.
Penetro bem nesse corte,
mas não resumo tal sorte,
a um lençol de cetim.

Não entro só no seu corpo,
gosto de invadir coração.
nessa terra, nesse horto,
germinam os sentimentos,
onde com calma e intento,
procuro  plantar emoção.

Por isso é que você volta,
E nos viramos folhetim.
Paixão não tem escolta
guardiã em terracota,
então ficamos assim.

Assim sem pé nem cabeça,
para que você não se zangue
para que você não se esqueça,
o tao é espontânea natureza,
e o ato do amor yang-yin.   
                        .
 mauro-paralerpoesiabastatercalma.blogspot.com

sábado, 26 de setembro de 2009

A fala estende o corpo( o trago da seda)

                         
                                                                                                Edvard Munche _ O grito



A palavra rasga a cara,
a faca da boca é a vóz.
O silêncio que te mata,
reproduz nó na garganta.
Pois tira do medo a manta.
Conta,  relaxa e canta.

A fala  afrouxa a gravata,
 liberta, humaniza, relata
o pensamento, não é algoz.
A lingua bem empregada,
na sintaxe faz passeata
do sentimentos e da razão.

Quando uma vóz a mais fala,
relata o humano instante.
Desnuda os significados,
inpacta os significantes,
num discurso coordenado,
retratando essa união.

Por isso fala !
Mas fala a palavra inteira,
não deixa que ela fique na beira,
não a perca no cadafalso
de sua própria repressão.

A palavra que pisa em falso,
vira ato falho.
como um recorte ou retalho,
que deixa faltar pedaços,
na clareza da direção.

A pessoa articulada,
sabe domar a lingua que fala,
o que não é coisa pouca.
Quem fala tem o domínio
completo do raciocínio,
exposto com lucidez de opinião

Fala, abre essa boca,
da assim liberdade à alma.
Respira e fala com calma,
que fala e corpo é um todo,
refratário á solidão.

Porque só veados e mulheres Andam falando de homens ( o trago da seda)

Festa-1992-Gregroy Fink

Estávamos ali sozinhos bebendo a Magnífica, enquanto pensávamos de quão pouco hoje algum homem fala do próprio homem.
Que solidão de macho! Que custo ao patriarcado!
Qual o universo desse guerreiro que recebeu a mulher no seu espaço e generosamente, ou não, o dividiu.
Ali com leveza e inteligência ela se instalou. Mas o feminino não é nenhum animal diferente, é gênero, embora às vezes pareça que sim. É que homem não discute relação, homem relaciona bem sem isso e pronto.
Tão bem instalada foi, que ela, a mulher, é de longe a maior frequência nesses encontros de estudos da masculinidade. Encontros esses bem raros.
Olha que situação....
Acho até certa essa situação, mas o pessoal do encontro deve demitir a assessoria de imprensa dessa organização, ... Fazer um encontro legal, dessa maguinitude , encher a casa de mulheres, e não chamar  a rapaziada? 
_Hum! Sei  não!!!!!
No mínimo isso é uma indelicadeza de género.
_ Sei não!!!!!
Será que essa moçada não sabe ainda que não dá mais pra seguir sozinhos sem a presença tão fundamental delas?
E depois tem o seguinte:
Homem que é homem discute masculinidade é no meio delas, sempre foi assim, A mim me parece bom.
Isso mostra quanto ainda temos que caminhar.
Então vamos apoiar os encontro de homens com os homens,  e também com as mulheres, delas com elas mesmas, enfim, de quem quiser com quem quiser de fato, Com honestidade e clareza.
Sem pensar muito, a coisa é o seguinte: Os homens devem se discutir sim, mas com as comadres ao lado, senão vira clube das bolas.
Fico meio bolado com isso; Vira assunto de cunho delicado.
A coisa é simples ......Tim Maia já dizia:
_Agora vale tudo!!
A mulher aprendeu masculinidade com os homens, não foi com as árvores, está na hora de aprender a falar de homens com as mulheres.
-

Assim é que é- III(a puta me encantou)

Roda de capoeira- 1953-Santa Rosa


Eu te dei o braço,
quase fui ao chão.
Você perdeu o abraço,
eu perdi  tesão.
Passo um laço aperto,
eu e o João.

Pode ser mormaço,
larva  de vulcão.
Pode queimar laços;
Mesmo com os esgarço,
eu não caio não.

Por que chão eu conheço,
como as palmas das mãos.
So  com meu alento,
vou pagando o preço
vivo da razão.
Pois com ela pago,
outro passo a passo,
ando coração.


Quanto ao seu olhar,
vai levar tristezas
todas prá  chorar.
Clara é a certeza,
nunca ter firmeza,
em visão vulgar.

Vai cair por terra,
com sua vida besta.
Verdade se expõe à mesa,
da existência destra.

O  cancer vai  chegar,
em  seu peito mesquinho,
morto sem carinho,
solidão sem par.

Enquanto você vaga
sua vida no que caga,
sem ser gente, so parecer.
Vocè é mesmo uma merda,
que estraga com seu cheiro,
Qualquer olfato parceiro,
de quem se deu prá você.

Farinha podre é pirão azedo.
Aprendeu roubar no estrangeiro,
da honestidade tem medo,
infeliz sem paradeiro,

Veio  então ladra e burra.
ponta em faca esmurra
só prá ver sangrar
falsa criatura
má fé na postura
não é se postar.

Ao meu lado fazendo feio,
roubando a paz que te recebe.
Bebe da desgraça e mente,
que é mesmo o que prefere.
Daqui vai sem nunca ser gente,
ferir-se com o ferro que fere,
que a morte te parta ao meio.

Vadia filha da puta,
que sua vida seja curta,
doída para sofrer.
Vá com o diabo agora,
pessoa de se jogar fora,
Pois vá com ele se foder.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pequeno prazer( o trago da seda)

“Uma Noite Estrelada sobre o Ródano”-1988- V. Van Gohg


Gostava muito de olhar para o ceu á noite.
Era um desses prazeres simples da vida, desses que às vêzes a gente perde dentro da gente mesmo, escondido num canto interno de arquivo do tempo,  guardado noutro espaço da história.
Ainda assim se segue vivo apesar da perda acontecida, malgrado essa falta de sorte, onde é dela, da perda, a vitória; Tem certas coisas que imprimem na memória, e essa era uma delas.
Hoje  se tem a vista mais curta, no entanto me parece que se vê mais por isso.
Porque se o olhar ficou pequeno, ficou mais íntimo, instintivo, e até minimalista mesmo.
fugiu do sereno, não  bebe mais lua no meio da rua.
Houve um tempo em que Ipanema brilhava nua, houve outro em que a felicidade até andava ao seu par.
Acho que  ela caiu no chão, e sem querer arrastou as estrelas, como quem puxa a toalha bordada da mesa do ceu para tentar se equilibrar.
Elas cairam então consigo e deixaram la em cima só o negrume nublado.
Agora parece que não existe mais brilho, a vida virou um breu, é o dia.
Entrou mesmo a existência em estágio de sítio, se redefiniu na tristeza e seguiu em frente; Triste, doida, mas mesmo assim simplesmente viva.
Apenas viva e mais nada, mais ainda assim, ficara na lembrança a ideia de gostar de olhar para cima e ver uma luz,  qualquer coisa de brilho naif por lá.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Se Drika vier(a puta me encantou)

Estudo de Nú Saindo do Banho-1984- Enrico-Bianco


Drika Carvalho veio com a chuva
Pecuniária tinha uma vulva
Trazia a boca como uma luva
Terá marido? Será viúva?

Drika Carvalho tem olhar sábio
Segue as estrelas sem astrolábio
Tem um sorriso dentro dos lábios
Nos meios, outro, belo cenário

Quem será ela? Tem namorado?
Quem lhe abraça apaixonado?
Se solidão, isso é errado
Agora então a quero ao lado

Se disser sim, serei seu mago
Farei um samba, tocarei fado
Para seu gozo serei tarado
Dar-lhe-ei colo, serei beijado

Quando seu corpo sentir mais frio
Vou esquenta-lo num rodopio
Serei parceiro, serei seu cío
Nessa explosão serei pavio

Mas se a vida for coisa pouca
A poesia lhe tira a roupa
Vai  lhe chupar com toda boca
Até ela gritar de ficar rouca

E quando o tempo mais acalmar
Seguir seu rumo de alto mar
Levarei Drika pra passear
Se ela vier, vou  me casar

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sex! Sex! Sex!(a puta me encantou)

Fausto-1976-H. Carybé


_Eu gosto muito de você, disse -me ela ao pé do ouvido com voz de cumplicidade, sem que ninguem notasse alem de mim.
Isso não era de todo surpresa, pois viviamos juntos para todo lado, e ela sempre deixava brechas de desejo em seus gestos e em suas atitudes sempre carinhosas.
Mas ali estavamos a trabalho,  a tia nos indicara com as garantias de satisfação.
A tia era ela mesma uma garantia, uma tradição na Mauà, era certeza de trabalho, sua palavra era empenho e trabalho certo, uma agente confiável, e alem disso havia recebido antecipadamente pelo atendimento Vip; Portanto o Momento e o desejo mais adequado nessa situação,  é o do cliente. No caso , os Chinas.
O casal de orientais pagou, e muito bem diga-se de passagem, pela noite que queriam. Resolviam parte de meus custos aqui no Rio por um mês, isso já descontados os cinquenta por cento, e ainda sobraria algum para o "braith". Não cabia paixão alí. Eu estava resolvido a não prestar atenção a nada que pudesse desconcentrar minha atuação para alem de minha própria ereção necessária.
O prédio era discreto, com uma portaria austera e um vidro blindéx que tomava toda a fachada de pé direito alta, demonstrando um aspécto arquitetônico da década de cinquenta modificado pelo conceito de vidro da atualidade.
Após o anúncio pelo interfone externo, por onde o porteiro demorou um pouco para entender quem éramos, onde íamos e nossos nomes, só então subimos por um elevador amplo e com um grande espelho ao fundo, ela aproveitou para dar um último retoque nos cabelos com as mãos, e retocar também o brilho nos lábios, acentuando a aparência "Pin-up produzida". Um toque de sensualidade que lhe caia bem para o ofício, afinal a aparência é o que se compra.
502 é aqui! disse-lhe secamente em um tom que não fosse muito alto para o corredor escuro e desconhecido.
Uma porta com poucos detalhes em cor de jacarandá estava em nossa frente, não sabíamos o que ou quem estava nos aguardando por trás dela; O primeiro contato visual é sempre uma surpresa para ambas as partes, acompanhada do sentimento de primeira vêz novamente. É sempre assim quando se abrem as cortinas do desejo alheio.
_Sex! sex! sex!
Gritava a madame em português mal acabado, num desarranjo de sonoridade gutural mandarim. Pareciam Coreanos de Taiwan, sei lá...
_Sim! Sim! Se sex em mim! Respondi em tom de brincadeira infantil, afinal todo turista é um pouco mimado como uma criança.
Enquanto tirava minhas calças, eu deixava o corpo disponível para o prazer aos desígnos da senhorinha de aparência fina, pele clara, cabelos negros e curtos cortados à moda ocidental, mas tão lisos que deixavam a evidência de sua origem asiática escorrer pelos ombros.
Os olhos eram  miúdos e pareciam ávidos pelas aventuras e os  segredos íntimos do universo da sacanagem. Um sinal universal de que sacanagem é como o dinheiro, não tem pátria.
O corpo era pequeno e muito esguio, embora demonstrasse já passada meia idade. Parecia querer expulsar desejos que a mim não cabia discutir quais, mas no fim da questão satisfaze-los dura e o mais plenamente possível.
Vestia um traje exótico de seda vermelha bordada com minúsculas flores douradas na parte superior, com uma gola curta no entorno do pescoço fino, adornado com uma gargantilha onde se podia ver um pingente; Um anagrama indecifrável em um decote aberto generosamente no pequeno busto, deixando-o quase livre, pois notava-se os bicos endurecidos dos seios evidenciados na seda lisa que descia até o tornozelo.
Estava sem peças íntimas por baixo dessa veste delicada, com aberturas laterais ao longo das coxas finas e brancas, tão brancas que era possivel notar os traços de alguma veia saliente sobre a pele.
Calçava uma pequena sapatilha aveludada preta, com um camafêu de pedras na pala superior que cobria quase a totalidade dos pés pequenos e delicados ali calçados. Tinha um corpo balzaqueano de aparência agradavel aos meus olhos, o que era a princípio um bom sinal....
Após as apresentações sentamos, e com poucas palavras recostamos juntos, em um sofá de curvas nos cantos, que separava dois ambientes de uma sala enorme, pouco iluminada e sóbria. Belas luminárias do tipo lanternas chinesas pendentes do  teto  iluminavam o ambiente de forma discreta, davam um ar de segredo a tudo, mais, deixando uma penúmbra semelhante a um antigo cabaré dos anos vinte.Era uma confusão de sombras, algo lúdico se não existisse de fato.
Foi rápida !
Sem muita cerimônia acariciava meu peito e trazia meu corpo para junto ao seu em um movimento leve mas decidido, não permitindo que minha atenção se fixasse no ambiente, mas em seus atos.
Sua  mão direita já palmeava o membro, embora pequena, fazia-o com destreza de quem conhece os tatos adequados às suas intenções do prazer, parecia conferir com um gosto íntimo a uma encomenda comprada, adquirida pela internet, que acabara de receber naquele momento e desempacotava com avidez.
Tinha pressa, embora tivessemos toda a noite pela frente para o que bem entendesse de realizar em seu proveito próprio.
Ali eu era seu, estava à disposição para satisfaze-la em tudo; Toda fantasia é carnaval.
Não sei dizer exatamente como, mas com sua lingua curta e boca pequena a asiática tinha elasticidade para abocanhar toda a minha virilidade em riste, pois tamanha era sua oralidade que parecia opiônoma em gozo louco e em muita pressa.
Gemia, chupava, mordiscava, mamava, sugava, engolia, lambia, salivava, labiava, mastigava, voltava a mordiscar levemente e a gemer estridentemente. Zunia e falava em um dialeto que eu não conhecia.
Após isso , subindo a cabeça entre as  minhas pernas, passou a lamber tambem meu peito e morder delicadamente o mamilo direito respirando ofegante, até chegar enfim á minha boca.
Era um pouco diferente pois sua estatura pequena contrastava com tamanha agilidade, voracidade e apetite naquele momento. Tinha fúria no corpo quente.
Tinha esse corpo franzino mas todo proporcional, o que quer dizer, cavidades pequenas para tanto desejo acumulado, guardado.
A anatomia de sua boca encaixava-se perfeitamente. Depois de um bom tempo de oralidades variadas, sentou-se delicadamente sobre a minha pélvis, sem camisinha, que lástima, e com movimentos ondulares fazia o seu corpo girar de forma flúida mas consistente.
Seu rosto brilhava de um prazer luzidio e radiante de mil candelas, embora no limite, de uma forma individual e toda sua.
Enquanto beijava-me fodia, enquanto me fodia , beijava e vise-versa prá todo lado, movendo-se como um móbile com a sonoridade dos ventos da felicidade; Sua pequena boceta fazia um movimento contratório de sucssão, esganando a piroca no tronco entumecido até o talo e soltando os pequenos e grandes lábios na ponta, pouco antes da glande, era grande a pequena, era gigante nesse instante.
Era mágica de circo, era engolidora de espadas, era equilibrista na corda, era pirotécnica, era fêmea, e pedia  _sex!, Sex! Sex!..
Anazalava gritos em vibrações idiomáticas desconhecidas e respiração ofegante:
_sex! Sex! Séx!
***
Ela acompanhava o senhor de estatura baixa e atarracado em uma dose de wisque Buchannas 15 anos aberto na ocasião;Não era um malte.
Parecia precisar de inspiração para a missão. Era decidida. Precisava de dinheiro.
Ele bebia sem gelo em doses generosas e tendo a atenção voltada para o que acontecia no outro canto da sala, parecia sentir prazer em observar, algo ali o animava estranhamente. Delirava com os olhos, desejava com os olhos, com eles se embreagava enquanto olhava, quase gozava.
O gozo nos olhos era tudo  que ela podia notar, pois  o China não tinha aparência de um devasso, parecia mais um adépto do voyeurismo clássico.
Os devassos têm a prudência aparente dos vendavais formados na alma, por isso podem ter a lucidez da calma externada e a fúria dos ciclones explodindo na mente, de repente...
Tirou-lhe a saia com a delicadeza de um monge zazen, com suavidade acariciava com as pontas dos dedos as entranças baixas entre suas pernas, até penetrar nos pequenos lábios de onde brotava leve umidade como uma nascente.
Fazia-o com grande prazer, mas não tirava os olhos do outro canto da sala nunca.
Enquanto agia, bebia sem gelo em goles curtos, de quando em vêz olhava com zelo e apalpava aquela rosa aberta em pétalas. Fazia-o como se tratasse de um animal de estimação, cheio de desumanidade fria.
Com a atitude de um guerreiro samurai crava então a espada em sua boca já um tanto anestesiada, adormecida pelo wisque, sem dó nem piedade.
Muito rápido e antes que ela pudesse opinar a respeito de sua própria vontade, que no caso pouco importava naquela hora.
Recebera pela boca adentro a benga roliça, até com um pouco de preguiça talvez. Não teve jeito, estava feito e pronto, não havia o que discutir, dinheiro na mão calcinha no chão. Faltou a camisinha, uma falha lastimável.
O homensinho já havia entrado sem pedir, havia comprado a atitude, como a uma passagem para viagem na carne trêmula.
Quanto álcool caberia naquela noite?  Pensava ela, quanta noite caberia numa garrafa de buchannas? quanto haveria de se fazer de sacana de aluguel?
A farra bucaneira seria longa ? Quanto sereno  de sexo numa noite um nariz cheira? quanta carreira? Quanto vou ter que respirar pela carteira?
Quanta besteira! quanta besteira!
Qualquer coisa vinha-lhe à cabeça enquanto recebia pela boca adentro aquele fardo endurecido e sem leveza, sem vontade, sequer, sem possibilidade de desejo próprio, sem um mínimo de autoestima, só restava atender ao fazer de um sexo unilateral.
Como e quando pode o amor ser solitário?
Como é difícil sem afetos preliminares, é preciso muita concentração para suportar. Se não fosse o profissionalismo ela não aguentaria aquela situação por seus buracos pessoais adentro, invasão pura e dura nas entranhas.
Sexo sem vontade é mesmo uma coisa muito, muito estranha, coisa tacanha.
Mas estava tudo dentro.
_sex! Sex! Sex!
O que sera que esta acontecendo com ele agora do outro lado da sala? estará pensando em mim? divagava em silêncio enquanto fingia o tanto necessário ao ofício.
Teria alguma alegria na carne para alem da minha?
Agora o China põe-me de quatro, quer mais, mais e mais.
_Dog! dog! gog!
Em mandarim português, em inglês,  em  japones, javanês, sei lá!
Nessa hora tanto faz!
À margem do corpo, é livre o pensamento.
_Dog! Dog! Dog! Sim, sim, sim.......
_Anal doí, não! Não! Naaaaaão...... _Aaaiiiiii......Filho da puta!!!
_Quem não sabe comer um cú, não brinca de tatú!
A sua lingua não era arisca, a sua boca não era bisca, ele não chupava bem, não achava o ponto, também não o procurava, estava bêbado e suado, estava mesmo brutalizado por dentro. Chupava de modo indelicado, era só um tarado fútil e impessoal, era inútil, era estupro consentido.
Perdia o melhor da tara humana que é o querer do outro, a outa pessoa.
Dava para  sentir o peso e o cansaço das doses da noite, e também da solidão do fato, acompanhada a quatro, de quatro, sob aquela luz bruxa de tudo errado.
Mas queria mais, e mais, o insaciavel oriental, cheio de muralhas, pedia aquilo que realmente não aguentava mais, e ela sabia disso.
Sentia o peso do trabalho feito, da missão cumprida, até já pressentia um pouco de asco na cituação toda.
As vêzes é assim com o sexo, pode ser anti-higiênico no profundo vazio da alma.
Pedia ao sono que se avizinhasse em  seus olhos agora, quando o ceu ja azulava atras da cortina das janelas semi abertas do novo dia. enquanto isso o homem queria... queria....queria..... Algo que nem ele em si mesmo sabia.
Ela por dentro, tinha sono e no íntimo, a tempos já dormia.
 Ela já obedecera todas as formas de penetração possiveis com o corpo já semi-acordado, no limiar da fadiga dos restos físicos.
Com conhecimento de causa sabia seus limites, mas ainda não tinha atingido as profundezas do sossego alheio contratado.
É que os desejos alheios são dízimas periódicas que se encontram no infinito das forças do corpo,  e essas já se desprendiam desse morto humano, feito de cansado corpo jovem, da flacidez do fim das batálhas,  de suor, da queimadura das carências materiais, nesse fogo de palha.
Ela queria mais luta, e mais, e mais...
Nessa diciplina da vida a cara do destino é mesmo puta.
Também aos guerreiros é dada a fadiga da guerra, era essa agora a hora!
O fio da espada já não rasgava a carne, não transpassava os muros o aríete baixo era  imóvel, enquanto ela pedia:
_sex!! Sex! Sex!
Como quem chupa cachorro morto. Era ímpia da realidade.
Pausa para o descanço, termo da folga, talvêz um pouco de calma refaçam as forças desgastadas. O desgaste humano não tem limites.
Sem saida, sem energia, sem tesão e sem solução, a caminho do banheiro vem então o auxílio luxuoso da amiga de sempre, da companheira de trabalho, parceira das fadigas de profissão da vida.
Ela já entendera com um olhar a situação, pusera-se apostos para resolver com a dedicação que só quem ama consegue imprimir no corpo do amado.
Com lábios de sudário trouxe à vida o morto, como uma luva vestiu-lhe da energia que faltava antes.
Sua boca como uma vulva trouxe-lhe às cavernas do corpo, o sangue que reduzira o flúxo a pouco; Isso deixava-o louco de prazer.
Voltava com força renovada para a função final do espetáculo circense a que se submetera, metera mais, e ademais, não queria se eximir da responsabilidade contratada afinal, é trabalho.
Após o embate durmiram todos, de acordo com o sol que chegara ao longe no pano azul do ceu.
Ao acordarem o dia hávia se partido ao meio, reinava a tarde, os insassiaveis queriam mais sex ! Sex! Sex!....
Ela em estado de sono ainda, disse com a rapidez e a autoridade que a necessidade exigia:
_Vamos embora, tire-me daqui e vamos rápido e agora.
_"Vamos vazar, meter o pé".
Com pressa de fundista ele abriu a porta de jacarandá e sairam, desceram o elevador como jogadores que descem o túnel apos a partida de futebol.
Ela ainda aprontava os cabelos quando a pantogáfica se abriu.
Sairam pela calçada larga da avenida Beira mar, sentindo o gosto acordado da brisa limpando as marcas de uso nos seus corpos cansados.
Seguiram em busca de algum boteco vazio que lhes permitissem um café da manhã em paz de final de expediente, uma média com pão na chapa.
Algum alimento que resgatasse seus corpos para o universo da diguinidade dos próprios.
_Eu gosto muito de você:
Disse-me ele ao pé do ouvido com a vóz da cumplicidade, para que ninguem notasse alem de mim..

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Riscos de amar- V(a puta me encantou)

Fantoche-1964-Di Cavalcanti
A indiferença no amor é uma sentença,
condenação  silênciosa a um final.
Ocorre quando já não há mais crença,
não há mais nada que convença,
a aliança partida é só normal.

É só normal olhar olhos nos olhos,
é nada ver, no que se desconhece.
No opaco rio já nem lágrima desce
e a nudez do nada, é descomunal.
Assim a vida segue parca decadente.

Quando um e outro são só tal e qual,
nesse acordo lento tudo é sem prazer.
Como ler notícia velha no jornal.
Nada vale a pena sem acontecer.
Viver amor morto é igual morrrer.

sábado, 12 de setembro de 2009

Após(a puta me encantou)

Foto de Clarice-Carlos Sclier
Minha amiga tem saudade lispectorante,
tão familiar, clariciando sua memória.
Que a lembrança deixa sempre farta história,
estocada na memória dos amantes.

Nessas lembranças do desejo o beijo é glória,
como a língua em outra boca é fala arfante.
Recordar é um retorno do distante,
recompensa do amor de forma adórea.

Minha amiga é de lispector instantes,
ela quem diz dessa saudade que não sei.
Eu que amei de forma incostante,
meu coração de tanto errante esquartejei.

Já não trago labaredas, só queimadas.
pelas estradas do amor que caminhei .
Saudade é um perfume de floradas,
eu a tenho por quem ainda não amei.

Essa lembrança, de clarices tão brejeiras,
na elegância da poesia de Queiroz,
é Diadorim, Diadorim, mulher primeira,
saudade é cheiro de um poema em sua vóz.

Sem falar no Manuel mais pantaneiro,
com Coralina, formam juntos seus avós.
Agora, bem aqui no Rio de janeiro,
sua saudade é um radiante após.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quando o amor foge(a puta me encantou)

“Madalena Penitente"-1996-Barahona Possollo

Quem faz do amor um negócio,
esquece bastante o seu prazer.
Perde o melhor do seu ócio,
retem o que é de conceder.

Assim sai correndo do fato
do amor ser amor pra valer,
Foge com o peito assustado,
isso te faz detraquè.

Se seu carinho tem mercado,
sei, dele até da pra se ver.
Mais sei, não esta acostumado
a ter um canto só para você.

Seu peito está equivocado,
ele tem medo de sofrer.
Prefere ficar desocupado,
ele  te põe pra correr.
.

domingo, 30 de agosto de 2009

On the road(a puta me encantou)

Soleil sur paysage bleu-1969-Antônio Bandeira


O sol rasgou todas as nuvens sobre mim.
A minha pele branca de reter noite,
sentiu queimar o couro da vergonha.
Na taça de teu corpo bebi ate o fim
tua parte mais íntima de despir.
Tinha a adstringência de um borgonha,
e de tão apertada tive eu que insistir.
Nessa trilha de corte justo, flui peçonha.
Um blues foi o beijo réquiem a carpir.
Agora saio cansado, músculos flácidos
de seguir os passos do corpo que tens.
I'm on the road agian


Se um pedaço de mim rasgou a ti,
para seu vinho da fama fui Paratí.
Quebrei-te a porta na tramela,
depois entrei pela janela,
fui dentro de ti cuspir.
Num gole de beijo bom,
bebi então o bourbon,
entre tuas pernas destilado.
Se Deus fez teu corpo decupado,
pôs o diabo em tua imagem e tom,
e eu sou um pecado alem.
I'm on the road again.

Agora sou o fim da festa,
depois de abrir-te em nesga,
e por teus lábios a sorrir.
Eu vou sem deixar arestas,
sei que a calma é sinistra,
por onde passa teus restos.
Pedaço deles é abraço,
o outro é canção de ir.
Mais vou eu e outro vem,
que se o amor não pertence a ninguém,
é encontro lúdico de trilhos, não traz o trem.
I'm on the road again.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

É ou não é ?(a puta me encantou)

Ou errado ou certo eu sou Silva-1973-J. Antônio da Silva

O amor é veneno vil
O amor é agareno mal
O amor é sereno viril
O amor é fundo de quintal
O amor é corpo febril

O amor é música vinil
O amor é cínico
O amor é químico
O amor é mímico
O amor é rímico

O amor é agriotímico
O amor é sutil
O amor é página de jornal
O amor é Yoko e John
O amor é Jontéx no pau

O amor é receita federal
O amor é pago fútil
O amor é tudo de bom
O amor é partilha
O amor é chegada

O amor é o tom da madrugada
O amor é presente
O amor é fogo em matagal
O amor é indolente
O amor é partida

O amor é a puta parida
O amor é asovio
O amor é psiu
O amor é correnteza de rio
O amor é ferida emocional


O amor é boca num oral
O amor é swing todo mundo
O amor é sexo grupal
O amor é paixão geral por bunda
O amor é alma carnal

O amor é samba em carnaval
O amor é coisa mais profunda
O amor é poder marginal
O amor é sina de poeta oriunda
O amor é língua na boceta

O amor é de veneta
O amor é vendeta
O amor é alagamento vaginal
O amor é sangue
O amor é mangue

O amor é bumerangue
O amor é fenomenal
O amor é carne entumecida
O amor é cama na avenida
O amor é em si natural

O amor é tudo tal e qual
O amor é tudo igual
O amor é nada
O amor é briga
O amor é estrada

O amor e namorado a namorada
O amor é prado
O amor é complicado
O amor e absoluto
O amor é busca

O amor é custa
O amor é justo
O amor é fado
O amor é cego
O amor é mar

O amor é do corpo o lugar
O amor é robusto
O amor é lego
O amor é compartilhar
O amor é mameluco

O amor é matuto
O amor é susto
O amor é não ter estatuto
O amor é meio início e final
O amor é leve

O amor é breve
O amor é brusco
O amor é muito
O amor é pouco
O amor é coisa de louco


O amor é rouco
O amor è sussurro
O amor é grito
O amor é casmurro
O amor é juiz que erra no apito

O amor é um rito
O amor é bandeira geral
O amor é conflito
O amor é drible de bola de craque
O amor é peça de bric a brac

O amor é sentido em destaque
O amor é trabalho braçal
O amor é mágico
O amor é trágico
O amor é circo

O amor é o olhar no cisco
O amor é mico
O amor é sorte
O amor é forte sotaque
O amor é cardíaco fraque

O amor é atabaque
O amor é falta de vergonha
O amor é jurar na fronha
O amor é peito farto
O amor é dor

O amor é sentir calor
O amor é aguardente
O amor é quente
O amor é cor
O amor é luta

O amor é ter conduta
O amor é sabor
O amor é bala
O amor é impala
O amor é pente

O amor é dente por dente
O amor é decente
O amor é indecente
O amor é calmamente
O amor é sem capataz

O amor é paz
O amor é demais
o amor é cáis
O amor é cego
O amor é greve de super ego

O amor é prego
O amor é duro
O amor é semente
O amor é somente
O amor é toda hora

O amor é agora
O amor é sorridente
O amor é bebida quente
O amor é inconveniente
O amor é mais que eu

O amor é aconteceu
O amor é programa de TV
O amor é você
O amor é simplesmente
O amor é cúmplice

O amor é vértice
O amor é crise
O amor é completamente
O amor é romper hímen complacente
O amor é amor no amor da gente

E onde não houver mais o amor,
é que o amor é sepulto indigente
E nessa terra adubo, a flor
ressurge pleno Novamente.



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Cara minha(a puta me encantou)

História Trágico Marítima”, 1944,Vieira da Silva

Todos os meus músculos de rigidez foram cansados.
Não tenho mais nenhum amor em mim, de estar vazio.
Com a face seca de tudo, como leito árido de um rio,
meus abraços de virtude da paixão, são estanques, já não as crio.
Os meus olhos de idade vivida têm visão de olhar calcinado.
Dentro do meu corpo morto, a vida anda lenta e de lado,
nele sigo a fogo curto, passo a passo, explosivo sem pavio.
tudo que tenho ou tive ficou gravado em pó de asfalto
também de mim agora desprendeu-se a poeira de algum pranto.
Não vale mais a pena gritar quando o silencio é mais alto,
diante desse seu afeto de mulher que quebrou o salto.

domingo, 23 de agosto de 2009

Prado Júnior(a puta me encantou)

Fotografia: Prado Jr. Marco Maciel

A tarde passa pela Prado Júnior com seu sol dislexo.
Abraça a lua colada com silicose no corpo negro da noite.
Nessa rua cara pintada de concreto côncavo e convexo,
um retalho de luz ilumina a face do Rio. Parece sem nexo.

Na PJ quem quiser se esconder, tem por lá quem o acoite.
Ah!  Prado Júnior! Essa pista onde o sexo é do sexo.
Sua carne anda nua, essa carne é o cerne da sua própria sorte.
Lá o preço do amor de mercado está pela hora da morte,
nos pregões das vitrinas,expostos em seus públicos postes.

É uma sorte do mar ser esquina de tão nobre corte.
Aonde todos vivem a procura, essa nesga de sal é o calor do seu norte.
Essa rua é viva, e bebe a si no álcool do seu bombardeio, nunca dorme.
Seus caminhos ressurgem nas vinte e quatro horas acesas de botecos e becos da fome.
Calçadas do vaudeville, Boulevard do movimento, caminho da diversidade e da adversidade da alma humana, aonde passeia o mundo todo com seu passo esperanto universal; Esperando quem a tome nesses braços cosmopolitas, de natureza tropical e física, unindo a mulher ao homem.
Prado Júnior onde a fome do corpo, noutro corpo se consome em outros tantos codinomes.
Seu tamanho é pequeno para mostrar o enorme tamanho do seu próprio nome.
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O cerne(a puta me encantou)

Pássaro-2001-Aldemir Martins

No mexido do corpo a saia da mulata treme,
bamboleia como as ondas do mar
nas margens duras da pedra do leme.
Meus olhos que são ventania de olhar,
perdem rumo, no sumo de vê-la passar,
sorrateiros gemem.
Não adianta o sal da tristeza ofuscar,
tudo muda ao vê-la assim passear,
na geleia geral dos desejos de olhar.
Meus olhos se rendem.
despindo o calçadão nos passos que da.
No minuto não importa pra onde ela vá,
o destino de um corpo é a outro amar,
sorridente Irene.
depois que ela for outro a enxergue,
o sol que a trouxe a levará breve,
volto à minha dor, que ela a mim concerne.
como a vida é breve!

sábado, 22 de agosto de 2009

Riscos de amar- III(a puta me encantou)


      O Sr. Não Está Só... Um Amigo em Toda Parte...,1966, Rubens Guerchman

O amor não permite abstinência,
nele não há ditame, não há pecado, só perdão.
Em falta morre-se lentamente sem clemencia.
O amor é o iconoclasta da razão.

Riscos de amar- IV( a puta me encantou)

Eles e Elas, 1965,Ivan Serpa

O risco de amar atravessa a esquina,
pode o amor se quebrar faltando rima.
É quando o olhar já não ilumina
um novo lugar dentro da rotina.

É quando um do par desloca a retina,
ou o que era mar vira uma piscina,
a união das cores já não se combina.
Aí a cumplicidade vira assassina.

Chora a tempestade nesse amor que fina
já não incendeia o fogo em gasolina
um sol de peneira forjada em cortina

Ah! quanta vontade de estricnina,
quando a paz amada é só disciplina,
e o que era mais, hoje nem se estima.

Riscos de amar - II(aputa me encantou)

Moça no bar- s/d-Yuji-Arimizu
O ciúme é um crime do amor,
quando sofre de apropriação indébita.

Temor, dor reflexo de outra dor,
que dói com a cena inédita.
Mesmo assim contem sabor.

É leite que sai da pedra,
é tanto que não se pega,
é cortina de fumaça,

inseguro quando passa
temeridade, fé madrasta.
Fogo frio sem calor.

O ciume é imponderável.
Tormento vivido em solidão,
fermento do irreconhecível,

enrijece quem é amado
em um cárcere privado,
nas cavernas do coração.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Anti- herói(a puta me encantou)

Fazendeiro com o burro e o balde-1950-Karel Appel


Meu corpo e único cárcere , é de onde fujo quando em vez . Parece que o faço com arte, mas o que eu faço quando dele escapo , é ir para dentro de outros olhos, e de la, nesse esconderijo escrevo por uma exigência do que esses outros olhos vêm. Eu fico cego como o cantador Aderaldo.
São eles então que fazem suas considerações livres, quanto a mim? Somente e apenas transcrevo tudo aquilo que dizem. Se isso é arte não sei , mas sei que é visão dos outros.
Sobre mim mesmo nada digo , de mim não há nada a dizer que valha a pena, mais vale o que eles os outros olham , o que lhes chama a atenção.
Esse é o ponto de vista que expressa um valor de fato, é dele o relato, só faço uma transcrição e mais nada.
Quando saio de mim assim, ando bem devagar nas ruas, para que esse olhar a mim mesmo liberte e assim possa observar tudo por onde passa; Sem que qualquer descuido meu possa ferir essa sutil observação.
Qualquer pressa minha seria ato danoso, então procuro caminhar nos fatos com o máximo silencio possível nos pés, meu olhar percorre a realidade como quem pisa em papel arroz.
Às vezes para não ser notado e não atrapalhar em nada esse olhar, eu chego bem de mansinho , sem estardalhaço. Estando dentro dos olhos, ainda assim, me despedaço das roupas da timidez; Descubro-me de sua capa de fumaça.
Uso somente um chapéu à noite, para que ninguém possa notar que saí de mim e venha procurar-me aqui, dentro desses outros olhos de os rever, que não são os meus , repito.
Assim, já fora de mim , tudo é despreocupado , qualquer verdade me vale, pois já declinei da razão. Sem ela me sinto mais leve, posto que a razão pesa e cansa como fantasia de escola de samba depois do desfile quando chove.
Por não portar razão, fico livre para variar das ideias de acordo com os olhos dos outros.
Para poder voar nos versos desligo minha personalidade, deixo que fique hibernando um tempo.
Para que serve também, enfim, a personalidade? Parece sempre forte e bonita essa moça rígida, que anda sempre comigo e se pinta de razão; Na verdade virou um castigo de super-ego que tenho que carregar.
Quando saio de mim, abandono os princípios como a um terno fora de moda, ou uma gravata antiga numa camisa de força.
Lembro-me do velho e moderno Mário de Andrade, depois de uma certa idade já tinha o Macunaíma, aquele herói sem caráter. Então jogo o meu fora, sopro a cocaína e vou embora drogado no que é real. Não drogado de alcaloides, que esses me afetam os músculos e eu já sou descoordenado o bastante. Hoje minhas drogas são mais fortes, são as ideias. Também não as minhas, que delas já estou cansado, por isso saio de mim e pulo para os mais dessemelhantes olhos, que de olhar tenham mais coragem que a minha, já esgotada a tapas.
Também não pulo para qualquer par de olhos, evito os olhos graves pois estão sempre muito ocupados e sisudos ou tristes, de tristezas me basto . Quero saber é de alegrias, de folia , de fuleiragem.
Quando quero falar de amor, primeiro eu me desnudo de todo e qualquer preceito, isso é fundamental. Depois jogo fora as regras que organizam meu transito, então, estando pelado das peças da ilusão, eu procuro somente as meninas dos olhos, mas somente aqueles apaixonados. Ali então me hospedo por um tempo não contratado , aonde o sublime é incorreto, o abraço é apertado, o beijo é das línguas, e o corpo é rasgado como papel de presente aberto ao suor da intimidade amorosa.
Quanto ao olhar, se acaso nele uma lágrima desce, é porque nela , quando não tenho a paixão sou eu sendo despejado.