Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Soneto do adeus(perna bamba é do samba)

A morte da toureira-1933-pablo Picasso
Muito você quer, eu a conheço.
Do que ofereço, você não quer.
Daquilo que sei, paguei o preço.
do seu preço não serei esmoler.

De mim ficará publico endereço,
de você faça tudo o que quiser.
Desdenho sua vida no desprezo,
aqueço o coração de outra mulher.

Se arruinei seus sonhos, faltou fé.
Na vida a fé não é um adereço.
Perdemos o amor, coisa qualquer.

Às vezes a outra vez é o avesso.
O destino da queda é por-se em pé.
Como o poeta, é manhã e anoiteço.

domingo, 12 de abril de 2009

Salve Jorge ( perna bamba é do samba)



Samba-s/d-Rodrigo Saramago

O meu samba tem as veias
no cavaco,
ele tem sangue no peito
do tan -tan.
Do Cristo o meu samba tem
o sovaco,
também tem na bola,
Maracanã.
Tenho prazer dele hoje estar
bombando,
ao cair o sol de fato,
fica bom.
Pagode em todo lado vem
rolando.
O Leme é cincopado
até o Leblon.
Pode ter mesa, no beco
do rato,
também tem na ladeira
Sacopã.
Com o bom samba não vem
tempo errado.
Em santa Teresa tem
gente que é fã,
Mas sobrenatural é
batucado.
As morenas balançam
iansã.
Como outras rodas,
a pedra do sal,
onde a história canta e
não é vã.
Outro pagode é maneiro
la na muda,
tem tambem da arruda ou
no largo do IBAM.
Dor de amor quando doi, o samba
cuida.
Saudade, tristeza ou
ferbre terçã.
Mas se quer mesmo sambar
vento em proa,
pode vir, pois rola até
de manhã.
Na prainha tem bom samba
da Gamboa,
essa roda é sem ondas
campeã.
Também tem nosso chorinho
da feira,
essa turma, é do samba
co- irmã.
Se quiser mais ao norte,
Madureira.
Serrinha eu afirmo, celeiro
de ogans,
onde o samba acontece
de primeira.
Tanto pode que ele agora,
tem elã.
Tamborin esta tocando
na mangueira,
o Estácio foi seu berço
e o divã.
Procurando esse tal
José Pereira,
é cuíca em couro de
cabrito.
Nesse ronco levanta-se
poeira,
ele atende quem samba ao som
do apito.
Ainda há outro estilo,
gafieira.
Os metais fazem pista,
é bonito.
São Jorge esta com a nação
mandingueira,
protegendo aos sambistas
e seus ritos.
No seu dia ha fé madrugada
inteira .
chama que não se apaga
em conflitos.
Pois o samba tem maior força
guerreira,
pedindo a proteção
para os seus filhos.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Malandro playgraund(perna bamba é do samba)

Grafitti na rua, s/d, Osgemeos

Quem é o tolo malandro,
que a tudo que ela diz, critica?
Parece esperto brigando,
mas compra agua de cuíca.
Olha como ele é bobo,
não sabe que o amor é fé.
Só no grito da esporro,
assim vai perder a mulher.
Se o pagode não apeteceu,
não faça papel de estorvo.
Agora o problema é seu,
assim é que nasce um corno.
Do samba ele não tem larica,
no samba ele não tá ligado.
Quando houve o som da cuíca,
o cabrão fica grilado.
Se ele não gosta de samba,
não sabe mesmo o que é bom,
vai beber agua de bamba,
vendida pelo o Neon.
Esparro no pagode é mal,
parece que manda, o voyeur,
mas lá no fundo de quintal,
ela faz o que ela quer.
Deixe a morena sambar mané,
vê se chega depois da hora,
depois do pagode em pé,
você quer leva-la embora?
Vem com esse nariz de bronze,
sambando pisa no ouriço.
Preste atenção nesse bonde,
samba requer compromisso
Tome mais agua de cuíca,
deixe a moça sambar rapaz.
No samba ela é coisa rica,
do samba ela gosta mais.
Esse malandro é um otário,
vem cheio de coisa e tal.
Peça de anedotário,
é mesmo malandro playgraund.
A baiana tem tabuleiro,
a carioca tem gingado,
tirar a moça do samba,
deixa um homem mal falado.
.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O sol vai e cai

Carnívoras, 2008, Adriana Varejão

Siga e sejamos amaveis.
Viva bem a vida.
Dias não são reciclaveis.

terça-feira, 24 de março de 2009

Negra( perna bamba é do samba)

           Separating Space From Sexuality (Pornstar), 2002, Julião Sarmento

Agora o amor se despede,
chega o sol.
Eu que deitei minha pele
na cor dessa noite,
quando as estrelas
formaram o lençol,
onde para ela
meu corpo inteiro
fizera a corte.
Sei que também
tenho um lado amoral,
como este que insiste
em mim agora,
cultivei no seu corpo
o meu quintal,
E colhi os beijos
que a madrugada endola.
O meu silencio
exibe um grito curdo,
um verso duro,
teso e temperamental.
Quando a negritude
cobre o céu em tudo,
nada é ilícito,
todo amor
vive um ato marginal.
Eu gostaria de te-la
sempre em meus braços,
onde o tempo
não tem valor de penhora.
Caminhos tortos
formaram nossos passos,
e o ultimo poema vai,
quando a noite evapora.
com os seus próprios passos
também, mais restam
as lembranças de alguém,
Com o calor que tem
essa jovem senhora,
que a realidade
diz ter ido embora.


Posso ler o poema XX
do Neruda,
desesperar na canção,
não vale nada.
O tempo novo
noutro tempo vai a muda,
nesse instinto
explode nova madrugada.
viver é um ato de ter a vida
às mãos, sem luvas.
Posso também lembrar,
o que é de breve e suave.
A bela negra ao meu lado
fizera-se desnuda.
Em tempo de amor,
em voo noturno
de ave,
seus lábios gemeram
livres de todas as regras.
Perfumara o sereno
como uma flor em brilho.
As estrelas miúdas
na manhã ficarão cegas,
ainda me povoa o peito
o pensamento vadio.
Poderia ter aqui
algum pincel e tela nova,
para pintar esse nu,
delineando suas curvas.
Mas já é dia e o amor passou,
vazada a hora.
No coração terei
as tintas da aquarela turvas,
Com o calor que tem
essa jovem senhora,
mais restam as lembranças
de alguém, que a realidade
diz ter ido embora,
Com os seus próprios passos
também.





Sem planos




Agora o amor se despede,
chega o sol.
Eu que deitei minha pele
na cor dessa noite,
quando as estrelas
formaram o lençol,
onde para ela
meu corpo inteiro
fizera a corte.
Sei que também
tenho um lado amoral,
como este que insiste
em mim agora,
cultivei no seu corpo
o meu quintal,
E colhi os beijos
que a madrugada endola.
O meu silencio
exibe um grito curdo,
um verso duro,
teso e temperamental.
Quando a negritude
cobre o céu em tudo,
nada é ilícito,
todo amor
vive um ato marginal.
Eu gostaria de te-la
sempre em meus braços,
onde o tempo
não tem valor de penhora.
Caminhos tortos
formaram nossos passos,
e o ultimo poema vai,
quando a noite evapora.
com os seus próprios passos
também, mais restam
as lembranças de alguém,
Com o calor que tem
essa jovem senhora,
que a realidade
diz ter ido embora.


Posso ler o poema XX
do Neruda,
desesperar na canção,
não vale nada.
O tempo novo
noutro tempo vai a muda,
nesse instinto
explode nova madrugada.
viver é um ato de ter a vida
às mãos, sem luvas.
Posso também lembrar,
o que é de breve e suave.
A bela negra ao meu lado
fizera-se desnuda.
Em tempo de amor,
em voo noturno
de ave,
seus lábios gemeram
livres de todas as regras.
Perfumara o sereno
como uma flor em brilho.
As estrelas miúdas
na manhã ficarão cegas,
ainda me povoa o peito
o pensamento vadio.
Poderia ter aqui
algum pincel e tela nova,
para pintar esse nu,
delineando suas curvas.
Mas já é dia e o amor passou,
vazada a hora.
No coração terei
as tintas da aquarela turvas,
Com o calor que tem
essa jovem senhora,
mais restam as lembranças
de alguém, que a realidade
diz ter ido embora,
Com os seus próprios passos
também.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Perna bamba é do samba (perna bamba é do samba)

   Samba- 1967  Di Cavalcante

Eu fui ao samba,
ao monobloco na avenida,
Sambei e bebi feliz da vida,
até a coisa apertar.
Na multidão não tive jeito
nem saída,
a cerveja consumida,
insistia em vazar.

Fui contorcendo,
parecia até um mímico,
procurei banheiro químico
em tudo quanto é lugar.
Resilientente
juro que não sou um cínico,
sei que não era o único,
mas nada de encontrar.

Na multidão
a coisa foi ficando cheia,
quase estourei as veias,
sem medo de amarelar,
para distrair,
pensava em coisas alheias:
Olhar pra mulher feia,
chope quente
chato em bar.

No bloco grande
mais quinhentas mil pessoas,
sambando e bebendo a toa,
até ver o boi voar.
O engano é resto,
tudo certo gente boa,
Travei a força a urina,
mas convenhamos não da.

Por entre clóvis,
mulatas e bailarinas,
a cerveja vaticina,
eu já começo a suar.
Segui em frente,
dobrei todas as esquinas,
foi quando veio urgente
um desespero para urinar.

Sofrendo forte,
o esfíncter descontrolado,
a bexiga fez um surto personal,
de arrepiar.
Olhei um muro
neutro e desabitado,
corri num tal desaprontado
no ocasional pude então aliviar.

imaginando que a ninguém
o ato incomode,
escorre o fio,
vaza toda uma piscina.
Desce um rio 
entre as pernas como pode,
de tanto mijo que saiu ,
tanta urina.

Na solidão
balançando-me para os lados,
foi quando ouvi
semi-atento alguém chamar.
Eu estava leve
respirando aliviado,
diante do ocorrido,
demorei muito a notar.

Era um sujeito
baixinho mas poderoso,
atrapalhando o gozo,
de quem findou de mijar.
Com certo olhar
de desprezo rigoroso,
o excelente nervoso
era alcaide do lugar.

Ele então disse:
_ aprume-se e esteja preso.
Nas mãos estava
sem dúvidas a evidência,
pego em flagrante
ato de crime indefeso.
respondi:
_tolice
tenha a santa paciência.

Fui explicar
que leis tinha a natureza,
mas era pouco
não sugeria clemenência.
Então guardando
depressa meu pé de mesa.
Do ocorrido
foi lavrada a ocorrência.

Prevalecendo o poder da valentia,
fui delicado
para o moço não se assustar.
Pudico em público,
de fato ele assim agia,
escondendo que queria
com isso ser popular.

O feroz gajo
tinha à cara o destemido,
sem garbo levou-me nisso
ao delegado do dia.
Fui Preso em público
como a qualquer bandido,
assim impune
o fato não ficaria.

Então chegando já
algemado à delegacia,
teve início que ardia
um tal de sapeca iaiá.
Por crime bárbaro
usa-se a democracia,
muito elegante a chefia
fizera-me confessar.

Sendo a verdade
dita enfim a todo time,
o que quiseram
não abstive de declarar.
Mas o homem teima
em querer ver a arma do crime,
contar assim me deprime,
mas não me neguei a mostrar.

Interrogado
para saber da minha culpa,
por atitude e conduta
de natureza vulgar,
da incontinência,
a prova era nua e crua
vista sem usar lupa,
Eu não podia negar.

Sou réu confesso
sem pudor, em violência.
Fui preso armado
de tamanha indecência.
fato de  grosso calibre em manifesto.
sem ter de resto um juiz probo e togado 
para julgar causa de tão longa evidência 
o fato é grave e transitou em julgado.

Não Permitindo o merecer perdoado,
No carmelitas daria pano para monjas.
Se o samba chama nossa festa de quizomba,
agora sou um homem menos depravado,
vou dar um nó bem forte na minha tromba,
sambar e beber à sombra sem trauma despreocupado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Essa eu fiz para você(perna bamba é do samba)

Sem título-1968- Alex Vallauri

Eu procuro alguém,
que saiba engenhar
outros limites.
que entenda o som do silêncio,
quando ele habita em mim.
será quem eu ouça dizer
o que não sei
em seus palpites,
de cujos lábios
saiam sorrisos simples,
por estar feliz assim.
E assim sorrindo
preencha qualquer possibilidade
de alma vazia.
Quem saiba que pra as verdades
não há treino ou improviso.
Há que esse alguém,
ter seu valor próprio
por moradia,
gostando de mim
pelo mesmo que sou
sem muito sismo.
procuro alguém,
que não se esconda
das outras pessoas.
Quem saiba que o sentido do amor
esta no outro e nela inteira.
Quando a encontre,
alguma coisa bem dentro
a dois pareça que voa,
alguém que busque amar
como o outono
e a flor, a quaresmeira .
procuro alguém
com a calma lúcida e louca
da poesia,
com quem o meu destino se cruze
pelo menos uma vez,
pois o amor é substantivo
na forma imprecisa,
unindo almas e corpos
para muito alem
da lucidez.
.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Bala perdida(perna bamba é do samba)

Almada Negreiros (1893-1970) A sesta 1939

Uma bela perdida no ar,
atravessou o meu peito.
Traçante como bala
alojou-se em minha calma,
Veloz quando veio.
Hoje estou vivo,
mas trago essa paixão fraturada.
Sequelas deixaram-me assim,
alvejado desse jeito.
No calor do sol
e no azul de Janeiro
em plena madruga
suas decisões são tomadas
na imensidão do breu
desses olhos escuros.
Precisos e inflamaveis,
os seus abraços buscam a mim,
como cordame jogado ao cais de atracação.
Mesmo assim, quando o amor é rarefeito.
Enquanto ele existir haverá perdão.

Não a esperava a passos radiantes,
com esses lábios bélicos,
tão capazes de tirar a paz.
Nova agitação que aflora,
rápida e sem apuros mesmo,
sem qualquer preocupação a mais.
Aqui onde o pouco é o tudo,
os nossos gestos vazam,
somos dois amantes imperfeitos.
Pois é onde estamos, assim
e ademais, cedidos.
Cedidos como o mar e a praia,
lançados um ao outro.
Há nessa nudez de supernova,
a pura natureza explosiva.
é o seu corpo nu, negro,
celeste, que brilha.
Agora esse corpo è doce,
é a madura estrela
esquecida sobre os meus braços,
queimando as últimas chamas.

Eu sigo atingido em cheio
nessa linha de fogo
pelo calibre curto
desse olhar delicado.
tiro único,
rápido e certeiro,
na pontaria dessa emboscada
que é o desejo.

.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O novo(perna bamba é do samba)

Foto-2010-AP/Terra

Outro ano entra em chamas,
esperanças são queridas.
O desejo faz campana,
vai queimar tempo na vida.
Povoar Copacabana
numa alegria incontida.
Búzios, flores, fé profana,
multidão contemplativa
Explosivos com o prazer
todos vêm expectativas.
O novo vai acontecer
traduzindo a estrela altiva.
Dentro do anoitecer
a praia é gente comovida.
vamos renovando o ser
novesfora as feridas.

Cicatriz no amanhecer
acordando as tratativas
Novo ano a escrever,
tela branca colorida
vem e rompe o que vai ser.
O futuro é uma avenida
toda para percorrer
com os amigos por guarida.

Outro amor fará tremer
a existência desprovida.
Nova lide a exercer,
novo pão nova comida.
Fogos fazem os proclamas
brindando a mim e a você.
Se o tempo refaz as tramas,
nós continuamos a tecer.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Chove lá fora e aqui(perna bamba é do samba)




Quando chove como agora no Rio de Janeiro, então toda a cidade chora em um só tempo; Tempo fechado, foge o azul, no céu fito o cinzento.
Faz vento e o quando esfria, levando a calmaria.
Nesse lamento essa cidade mulher se assenhora, quieta, parada, silenciosa quando chora.
Despindo tristezas de pedra no seu corpo negro, da gávea de granito, da embarcação que ancora.
Os dois irmãos monolíticos avistam a boca do mar, carpindo as outras pedras, num estrondo repetido.
Pedra do pão, pedra do sal, pedra bonita.Rampa dos embarcados no ar das gaivotas.
Com sua firmeza escorregadia de perigo a solta, pedra feita de açúcar é almirante negro da baía.
Tem em seu peito as esquadras do porto e as chibatas da revolta, com os pés cravados na areia, lavados na espuma derramada a força cândida.
O açoite verde de mata atlântica minguante vem, e também pisa à beira, o mar.
Levitando no limo do surfe, a esgrima fina das marés e dos corpos em luta.
Trapezistas em suas tábuas de equilíbrio são canoas de pescadores, em humana ousadia.
vorazes e velozes dominadores de ondas em harmonia com o tempo das espumas.
Das costas negras marinadas, grandes corcovas rígidas, o granito Tijuca ronda.
Com a imponência e a firmeza de guerreiro solidário, em vigília maciça, atento a tudo à sua volta.
Legião de pedras, formam a grande muralha milenar em guarda.
Vidigal e Rocinha avistam tudo do alto com os seus olhos humanos.
São faróis habitados por gente simples, também ela equilibrista na coragem das encostas íngremes, tal qual a natureza de suas próprias vidas.
Em tudo chove, em todos chove enorme, caudalosa a cidade escorre.
Como mulher Marina que se pintou, é cinza agora e aborreceu a todos, trazendo seu nevoeiro parado. Chorosa, mascarada, colombina fria, nublando seu rosto de encantos e luz.
Vazia é outra, quando traz os seus olhos pintados dessa cor tão desolada em solidão.
Todos resistem desajeitados, tentando não se molhar na chuva ao ser quase Paulistas, mas não é possível, não adianta a deselegância discreta, pura intolerância tola do poeta diante dessa mágoa urbana de nuvem, de névoa.
A cidade é marinha de cais e maresia, então soluça em aguaceiro.
Promessas de sol restarão lapidadas na memória, mesmo que não cumpridas.
Pessoas e praias ficarão guardadas para o depois, pura birra da natureza.
Nessa hora aparecem os lamentos do dilúvio lavando os braços tropicais do Cristo, sempre abertos a todos que a qualquer tempo orem, pétreos de sua fé no inabalável ceu azul.
Com sua face também de pedra, ele reclama do esconderijo cumuloninbus a que é imposto, nesse calvário acanhado de cidade molhada, resguardada e vestida.
Mais que vestida, encapuzada nos casulos de guarda-chuvas, e mantos, e capas, e panos.
Escondendo o calor dos sonhos de pele, de cidade desejada e quente, na realidade do fastio da correnteza de águas exageradas.
O Corcovado é um guardião da baía de Guanabara, feia e fria agora, observador acabrunhado que a tudo vê, que a tudo nota, sente calado.
Também calada, toda a cidade em águas, numa postura combinada sem palavras, aguardando que a tristeza morra nos caminhos tortos da Niemeyer.
Onde o oceano tem raiva, e irado rebate na pérgula, gritando mágoas incontidas.
Demarcam os seus espaços, terra e agua, agua e gente, gente e pedra, desaparecendo nas teias das espumas brancas de força bruta e quente, como aguardente.
Ondas de dor arrebentando nessas pedras, que apanham pregadas como fieis penitentes, arpoados com o arpão do sal e o iodo da cura, padecentes em ebulição de fervura, torturadas pelas águas .
O mar invade tudo, lambendo o corpo nu da pedra do arpoador solitária, com sua língua branca é íntimo, deixando-a úmida.
Numa solidão confusa dos que namoram e brigam, mas não se separam nunca, a pedra é firme no caminho, enquanto o tudo é agua movente.
Tudo fica calado, fica pra outra hora, tudo se atrasa, fica engarrafado.
Para a tarde no trânsito enquanto não houver outra tarde ensolarada, de depois, do futuro, de outro dia, outra meteorologia, outro tempo, outra vida, outra verdade comum á claridade do Equador.
Como o sentimento profundo e mudo de fim de amor, quando o coração fica calado, preservando-se, porque quando acaba o amor o que resta é o silêncio, o tempo é adestrado ao silêncio triste.
A tristeza do fim de um amor é o butim da solidão.
A cidadela de festas aguarda na intimidade das suas paredes concretas em ausência. Tudo é memória, tudo é o fim, só o silêncio fala seu minuto de glória.
Resguardando as avenidas das pernas e corpos, nos chiados dos pneus e espelhos d'agua espirrados, nos barulhos de poças. Onde estarão suas moças? Onde estarão que não as vejo?
Com seus sorrisos de olhos abraçando as esquinas do sol.
Quando chove assim no Rio ele as perde, ficam raras ou poucas, cheias de botas e roupas, tecem pressa nos cabelos das escovas progressivas.
Preservadas no mofo armário dos apartamentos, reclusas dos ventos, nos velhos casacos de inverno falsos, nos escritórios de papel e máquinas.
Nas ruas os comandos apregoam as sombrinhas de dez reais, preciosas chinesas do contrabando, nas bocas dos mercadores da chuva.
Escondidas das águas seus corpos somem, com eles vão também seus trejeitos.
Esvai o fascínio feminino, tudo esta em desamparo, em desalinho.
Descompondo a paisagem natural das praias, o deserto de areia é abandono.
É o exílio temporário das morenas, do caminhar despojado das calçadas portuguesas, também essas feitas de pedras recortadas e juntas.
Devaneios, desejos e encantos são lavados, ficando cinza, tudo é griz, a cidade mingua embalsada nesse engano. O amor não se propaga e quase finda, até que venha o sol e reponha cor em cena com seu giz de luz e brilho.
Sem suas moças o Rio fica perdido, tudo fica perdido sem sua gente, o Rio tem alma fêmea, é cidade feminina. Sem elas definitivamente não vale a pena, sem elas a natureza esfria e não serena.
Mas se isto é tudo, eu não posso ir embora, chove la fora.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Fim de papo(perna bamba é do samba)

Amor-s/d-Bea Cassiano

O amor só começa onde a paixão finda
Quem sofre apaixonado
Não sente o perfume do amor ainda.

Ponto de partida(perna bamba é do samba)

A Luz(!!!)-2008-Mauro Piva


Quem vive solidão de fato,
sabe bem pouco de si.
Não corre riscos de troca,
não retribui nem evoca,
ninguém abraça ao dormir.

Não cabe, pois vive o hiato.
Tem sombras na imaginação.
Traz o peito sem palato,
vende o afeto empalado,
não se arriscando ao perdão.

A solidão corriqueira
traz costume, faz morada
na pessoa acostumada.
Entorna a fria madrugada,
a dois não há brincadeiras.

Tristeza em usucapião,
sujeito cheio de medo
escondido nos segredos,
vive um engano ledo,
protegido de invasão.

Nessa triste condição
fere antes de ferido,
mal amado, mal dormido,
esse peito em si contido,
vai responder a questão.

Como aposta primeira
resposta mais aguerrida,
para quem servirá a vida,
se não for bem dividida
para então ser vida inteira.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Eterno(perna bamba é do samba)

S/título-1986-Nobuyoshi Araki


 Alguns dizem que o amor é eterno.
Isso não faz sentido algum.
Vestem-lhe roupas, gravatas, ternos.
Eu por mim acho bom o amor nu.
Essa talvez seja a sua dor.
Quer sair por aí à vontade, pelado.
Isso de fato despede o pudor.
Tolos o querem empacotado.
Mas em conserva ele não respira.
Depois, com tempo, perde validade.
Deixe-o andar sem panos ou tiras.
O amor precisa de publicidade.
Vamos depressa tirar-lhe o vestido,
para que transpire, já que é alma de pele.
Sem ser assim, não terá acontecido.
Há que despi-lo para que se revele.
sem a farda da propriedade,
liberto, será só de quem o tem,
desde que sem formalidades,
O queira despido como convém.
Com tal respeito a esse alimento,
Que se revelado, a todos seduz.
Só quem tem medo o deixa guardado,
Mas só quando livre é vivo, é luz.

A Lágrima(perna bamba é do samba)

                                                 Lágrima Da Sereia-1965-Mabe


A lágrima molha o homem
Mostrando um ser só humano
no sal do choro há sentidos
Divergentes dos profanos
Puro é personalidade
Todo choro é destemido
Comum a qualquer idade
Dos adultos aos meninos
Não esconde um Deus de vidro
salvaguardando os enganos
Pede respeito aos ouvidos
Aquele que está chorando
Pois se o choro verte à face
Da vida é que se assenhora
brota nele a fio, o brio
quando é a alma que chora

Encontro da tristeza com a alegria(a puta me encantou)

A arte dos balões- s/d-Hackenwerth

Um Certo dia qualquer
não sei precisar com certeza,
mas eu atesto e dou fé,
a alegria foi visitar a tristeza.

Surgiu em corpo de mulher
perfume de dama da noite,
vestiu-se em roupas e frestas
sujeita assim muito afoita.

Deixou bem a vista as festas
Sargaço e cheiro de mar.
Sabor que a tristeza arresta
morrendo pra se matar.

A alegria essa meretriz
esquece a dor e padece
fulgaz tatuada em giz.
Sorri como quem merece,

trazendo mel nos seus lábios.
Vendo enfim a alegria feliz,
a tristeza esqueceu os sábios,
tornou-se assim aprendiz.

Com alma de pouca roupa
bebeu, comeu e cantou,
deu tantos beijos na boca
mergulhos de Jacques Cousteau.

Num canto de boto a sereia
como dois copos de bar
encantos de levantar veias,
até o corpo cansar.

Depois a alegria em afagos
qual boa mas passageira,
a bela fumou seu trago
de erva que faz besteira.

Roubou um pouco de calma,
saiu indo porta afora
furtivamente sem alma.
Como chegou foi-se embora

Então meteu pés, foi a rua,
sumindo em alegria vulgar.
Deixando a tristeza dura,
pra outra tristeza encontrar.

Discórdia(perna bamba é do samba)




Galos-1959-Djanira

Tumulto na harmonia,
Ação em controvérsia
Da pele e da alergia.
Barulho na conversa.
A fartura e a miséria.
Um talho no pescoço.
Ser velho sem ser moço.
Cão que briga por osso.
Garganta e a espinha.
Desdita em alvoroço.
Um murro entre as caras,
Um AK que dispara
a perdição das balas
Quanto há de covardia,
Entre o pensar e a fala.
Desvio de amizade.
Amar sem ter vontade.
Faltar com a verdade.
Pimenta em demasia.
Tumulto na cidade.
O ato e a letargia.
Tristeza da alegria
Na inútil serventia
Da escuridão das vidas
Se ausente é a poesia.
.

Dia do samba(perna bamba é do samba)

Carnaval, 1984, Carybé



















Tem samba na central
Tem samba na central
Tem samba na central

Dezembro tem carnaval
No vagão minha Portela
Paulinho é a fera
E o Paulo é fatal
A velha guarda se esmera
Caminho das pedras
Mostrando o sinal.

Mangueira outra primeira
Estação Cartola.
Cachaça total.
Lá vem cacique de ramos
Dona Ivone Lara
Fundo de quintal
Salgueiro trouxe o Aldir
No vagão botequim
Que é o seu hospital
Mestre na arte do samba
Cana de gurufim
Ginga de futebol

Quem bem nasce lá na vila
No vagão estréia
Matinália é gol
Martinho vê essa filha
Luiz Carlos brilha
A escola chegou.

Tem também bafo da onça
Onde o samba desponta
Cheio de moral
Sob o sovaco do Cristo
Vadico feitiço
Dia nacional

Império serrano já tinha
O vagão da serrinha
Num jongo dileto
Moças sambando agora
Lembrando das rodas
Do Grande Aniceto

Outro vagão desatina
Na Leopoldina
Mostrando que é
Uma escola de samba
Descolada e bamba
Sambando no pé

Novo vagão vai enchendo
Gente vem surgindo
Olha o galocantô
Trazendo no cavaquinho
Um Zeca pagodinho
É com nesse que eu vou.

Trem da Tereza Cristina
Esse tambor de mina
Cantando somente
Um novo samba que brota
Tocando em volta
Comuna semente

Lá no vagão de Nilópolis
Trazendo própolis
Neguinho entrou
Era um vagão passarinho
Parecia ninho
Para beija flor.

No vagão apaixonado
Um samba apertado
Fazia calor
Tinha marido enganado
Pois se é simpatia
É quase amor.

Outro vagão vai de letra
Cordão bola preta
Arrastando gente
Todos seguram chupetas
Não é micareta
É o samba somente

Olha o Bezerra que canta
Falando de planta
Que é bem popular
Mas da uma fome danada
Que o vagão cala
Pra se alimentar.

Quando fazia zoeira
A Cantar João nogueira
Num outro vagão
Era o clube do samba
Lembrando o poeta
Só era emoção.

Vindo lá de Niterói
Mesmo vendo que dói
O vagão vale ouro
Num samba que nos encanta
A sair da garganta
Lá do Viradouro.

Tem um vagão que delira
Os gigantes da lira
Meninada quente
Com seus palhaços e banda
A todos encanta
Assim miudamente.

Outro vagão a lotar
Escravos da Mauá
Velha beira do cais
É tanta gente a cantar
Lara lá laraia.....
Mas ainda chega mais.

Vinha tão cheio e indolente
O Vagão mocidade
De Padre Miguel
Era de felicidade
Cantando contente
Um samba fiel.

Oswaldo cruz é o caminho
Surdo e cavaquinho
Há pandeiros por lá
Onde o samba não dorme
Todo dia é do samba
Pra gente acordar
.

Poema mudo(perna bamba é do samba)

Estátua de Fernando Pessoa, no café A Brasileira, ao Chiado, Lisboa.



Eu não sei dizer poesia,
o que sei é ser poeta.
Sem nenhum alto relevo,
então, o que sinto escrevo.
O texto é fala desperta,
para aplacar a agonia.
Embriagada e indiscreta,
da boca a língua alfabeta.
Sobrando antropofagia,
todo corpo é poesia,
sem isso ser uma meta.
Nas letras a linha iradia,
descrita onde não cabia.
O papel despe a utopia,
Palavra formando a rima,
D'ideias em pernas abertas.

Flexões(perna bamba é do samba)

Orixá-1966-H. Carybé
Cuidado,
Preste bastante atenção
a vida vai te pegar.
Vai te arrastar pela mão.
cuidado,
sem ela vem solidão,
Muito cuidado agora.
A vida tem garra afiada
e braços pra qualquer lado.
Se ela te vir não te esconde é na lata,
ela é viva e vai te pegar.
Não, não adianta correr,
não escapa, ela te encontra
Onde for em todo lugar.
Não tem jeito amigo,
viver não é coisa à toa.
Vai te buscar pelo umbigo,
não vá então ficar prosa.
Pode até ser uma boa,
ter corpo de ser gostosa
pois mulher é o que ela é.
E ouça não é cor de rosa.
Não é uma coisa qualquer.
Mas olha da vida lhe digo,
também não deixa barato.
Se acaso ela passar por ti,
espero que a ame de fato.
Quando isso não acontece,
com o tempo aparece enfarto,
a vida se desaponta,
faz ponte e fica infeliz.
É bom tomar-lhe bem conta,
ela não permite bis.
Se te amarrar a gravata,
afrouxa rápido agora,
porque quando ela pede passagem
sem dizer pra que te veio,
vai te deixar sem graça,
o medo põe seu arreio.
Portanto tome gosto e raça,
não a perca assim ligeiro.
Pois se ela não sentar praça,
se derramar por inteiro,
cuidado repito, ela mata,
vai te parar primeiro.
Não tem mais nó que desata,
uísque ou carro do ano.
No relógio o ponteiro para.
O que vai sobrar salvo engano,
historicamente é pró-ratada
de posteridade contando.
Mas se o que contar for dinheiro,
dinheiro amigo não chora,
só tem memória fiscal.
Também não sente saudades.
Aí não valerá pena,
vamos lá coragem,
existir destina a historia.
Só izordil não vale.
A vida não é pequena,
pequena seria inútil,
inútil seria vil,
servil ira embora,
cuidado.

Geraldo Achiamé(perna bamba é do samaba)




Meu caro amigo Geraldo
A vida não está prosa
Se puder evitarei
Agulha intravenosa
Dizem que é um veneno
Vou contar-te um segredo
Tenho buracos pequenos[
Se tenho cú, tenho medo
Nas minhas veias o sangue
É pra lavar coração
Apenas algumas picadas
farei até com certa fartura
São as picadas de lei
Do mestre da acupuntura
Afora isso um abraço
Bem cheio do meu afeto
Esse poema a ti eu faço
Pelo hemograma completo.