Citações

A palavra é o fio de ouro do pensamento.


SÓCRATES

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tá prontinho? ( A puta me contou)

Fotografia: Seda-José Gama
Tá prontinho?
Perguntou Fernanda com olhos de malícia, tá prontinho?
Essa era a senha para a felicidade, objeto e sonho de consumo dos homens, mas nem sempre algo acessível a todos e a qualquer momento. Para ela é necessário investir, estar realmente preparado.
Diferenças de visão de mundo, concorrência entre pessoas adversas, desigualdades várias e miopias ás distâncias podem ser o ensaio sobre a cegueira humana nas suas relações.
A felicidade se dissipa com tais influências. todos a desejam, todos a buscam, todos sem exceção, perseguem no íntimo esse objetivo, mas nem todos realizam inteiros o seu fim, ficam suspensos em sí mesmos numa espécie de sublimação afetiva. De fato é preciso estar bem prontinho antes.
Fernanda sabia disso já a algum tempo, e ela sim, estava pronta para o bónus do amor naquela hora.
Havia passado por outros amores antes, havia brincado de casar na juventude, havia casado para gerar, havia gerado outros desejos passados, agora estava pronta para esse que se suponha ser o maior de todos os desejos humanos. O amor de entrega e o de fato correspondido.
Diferente de outras de suas mais variáveis formas, esse é sem dúvidas o maior de todos, posto que é troca em completude. Para esse tipo de amor é preciso viver um tempo antes, cometer erros antes, degustar solidão antes, é preciso sofrer para entende-lo, para desnudar sua ética.
Sempre é pré-requisito para quem se propõe ao amor, que a vida tenha se enveredado um pouco mais na realidade que cerca a existência.
É preciso tempo de maturação para os afetos.
A intimidade como a solidão, podem se mascarar na multidão e ibernar como forma oculta.
É preciso achar o carvão para encontrar o diamante. É preciso estar disponível para encontrar amor.
Fernanda mergulhou fundo para recuperar a própria vida, queria saber como goza-la com o coração antes de tudo.
Houvera esperimentado outras formas de amor. A cada um ao seu tempo se dera e de algum jeito valera a pena. Agora a sua hora nova chegara, com a importância que a vida dá aos que lutam por ela de verdade. A vida pela qual consigo mesma lutara de forma tamanha e obstinada, enfrentando duras provas, para saber  gozar de novo com o coração inteiro.
Se a vida cobrara à vera seu preço, então também essa lhe trouxera o endereço da felicidade, e os frutos de sua cepa.
A alegria, a solicitude, a entrega e a disposição para o outro, sem dúvida permitem que o retorno imediato venha espontâneamente. Fernanda o sabia, sabia mesmo trafegar nesse universo com a desenvoltura de uma bailarina de portar bandeira.
Conhecera-se o bastante para não temer a sua existência, não se assustava diante do mundo com as individualidades dos liberais.
Ela sim entregara-se ao amor, salvara seu coração nos segredos de amar, ao se desvendar em amplitude nesse ato.
Estava limpa, perfumada de espontaniedade e beleza. Estava nua de carinhos e dádivas, estava inteira amorosa e linda.
Apenas perguntava a ele :
_Cê tá prontinho?
.

domingo, 5 de junho de 2011

Singularidades ( A puta me contou)

Fotografia: Simetrias de José Bóia


Inspirado no conto Singularidades de uma rapariga loira de Eça de Queirós
.

Seus olhos retinham a alegria da vida.
A sua vida trilhava ilusão de integridade
contagiante; Em cuja postura adquirida
fizera-se a atitude,em largura de avenida,
onde ao seu lado quase edificou felicidade.

As noites sorvidas comuns nas taças de vinho,
eram o caminho para o amor das madrugadas.
Aonde os corpos afagaram o mais puro desalinho,
unificando-se em partes de unidade o comezinho,
pôde um engano vaticinar o gran- final, não dar em nada.

O engano é sempre um malfeitor, vetor dos desesperados.
Não sobrevive tendo algum resquício de amor ao lado.
Sendo equívoco ao afeto é deste o seu maior culpado,
sofre a priore a pior dor, a dor dos equivocados.
desintegrando-se nos braços do sujeito, o enganado.

Vão se desfazendo as imagens nas cenas mais caricatas.
O tempo é só o tempo, tudo nele há de ser o nada.
Quem tem só poeira nos olhos, não saberá ver a estrada.
Quanto maior é o tombo, menor o vão da escada.
Tem gente que perde o amigo por não entender a piada.

Quem sabe onde a vida é certa, derrapa onde ela é doida.
O ontem é tão singular, em qualquer rapariga loira.
Quem se põe enfim a chorar, terá lágrimas estoicas.
O vagão do trem é lugar onde a existência é heróica.
Toda pupila dilata onde a pílula a mais lhe doira.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Assim ( O analfabeto poético)

Fotografia: Curiosidade_ Stella Maris Sammartino
Leia alguma literatura todo dia,
ou desista.
Escute alguma música todo dia,
ou desista.
Informe-se da realidade todo dia,
ou desista.
Esteja inserido no mundo todo dia,
ou desista.
Vista a sua própria pele todo dia,
ou desista.
Sofra mortalmente pela vida todo dia,
ou desista.
Ao morrer assim, novo, renasça todo dia,
ou desista.
Escreva uma palavra qualquer todo dia,
ou desista
Resista ao modelo fácil todo dia,
ou desista
Evite o superficial factível todo dia,
ou desista.
Fuja da miséria das ideias todo dia,
ou desista.

Sumariamente assim venha a fundo,
todo dia.
Somente assim vale a poesia à sua volta,
todo dia...
Semente assim germina a poesia
todo dia...

Sumamente assim poesia.
Todo dia...
Dia todo...
Todo dia...
Ou desista!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Réquiem ambiental ( Barril Diógenes)

Fotografia: Rodolfo Oliveira. Agência Pará
Ainda temos as Sesmarias,
definindo a mata e o chão.
Na face fria da covardia,
na ideologia da ilusão.
Ainda há força da faca fria,
na jugular de uma nação
Decide a vida numa valia
de pouca monta e devastação.
O latifundio já desmatado,
é fogo queimado Colonião.
Seguem o grileiro indelicado,
junto ao rei da mineração.
Extrativistas morrem ao lado,
sendo enterrados no correntão.
Terão morrido por um pecado,
de serem fardo à ocupação
de uma fronteira para o gado,
ou madeireira usucapião.
Fica a pergunta mais intrigante
perambulando a indignação,
quem terá sido esse mandante?
Um estrategista ou um ladrão?
Quando será a proxima vêz,
na amazônia ilegal Brazil,
há de morrer mais um camponês,
sob a impunidade azul anil?
Quem extermina os extrativistas,
o que conquista com a outra mão?
Finda a floresta, mas sua gente
junto com ela, não finda não.
Se matam um de forma indecente,
o sindicato forja um milhão.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Somos (O olhar da carranca)

Fotografia: Valparaiso-Maria Fernandes
Meu tempo no seu se repõe e se confunde,
nesses braços da Nuvem de Valparaiso.
Eu me apoio nos sorrisos que me deste amiúde,
trago a vida no que é feito desse efeito inteiriço.

Caminho desconhecido, essa é a onde que tenho.
Sou dos fatos, e assim fulge tudo o que mais creio.
No carinho que há em mim cabe um taparro Portenho.
Sou dos vinhos, sou Cinzano, sou nos passos Bamboleio.

Quando enfim o eu somos nós, é que mais me realizo.
Sermos dois é sermos juntos onde tudo é atitude.
 O amor enceta a vida com seu dardo mais preciso.

Sobre as fotos os registros desse tempo altitude.
Onde os pés beirando nuvens, avisam aonde piso,
serei sempre mais feliz, sendo nós sem solicitude.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Luto( Banguelê)

Fotografia: Todas as cartas de amor-Joana Homem da costa                           Todas as cartas de amor...
A mulher amada quando triste tem nos olhos cor de cisma,
tem silencio sem sorrisos, tem soluços no olhar.
A tristeza nesses olhos tem as tramas de um sofisma,
quando o sal que há nas lágrimas, lava os fatos como o mar.

Quando triste é a amada, o amor vai triste junto.
Cai a tarde e força a noite, como a boca força um beijo.
Por mais que assim se tente, ficam frios os assuntos,
distando na falta deles as lembranças dos desejos.

Se o desejo vai embora, então mais não estamos juntos.
Assim finda o quase amor,  queimado qual meteoro.
Já sem rima o poema também fina, e eu também choro.

Assim fica o coração sem afetos, inodoro.
no fim voltamos ao nada solitários, devolutos.
Quando acaba um grande amor resta viver o seu luto.

Betume ( A puta me contou)

Fotografia. Desnudo. Mariano Efrain Carrizo
A  moça da bolsa de grife
e o moço que rasga dinheiro,
uniram as fichas cacife,
no jogo do amor financeiro.
Ele da moça é Cacique.
Ela do moço é letreiro.
Um sem o outro nâo vive,
dividem o travesseiro.
O amor pendurado em cabides,
deixa-se ser corriqueiro.
Se um traz no bolso o convite,
o outro desfila o seu cheiro.
Mas se um do outro é revide,
nenhum dos dois vem inteiro.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Umbigo ( O olhar da carranca)


Ifé é o berço do homem,
nascente da sua fé.
As crenças se iniciam ontem,
o futuro só as põe de pé.
A pé caminham aonde
o próprio homem as quer.
Quando ele quer as esconde,
na pergunta que responde
em nome de um Deus qualquer.

Poesia ( Mamulengo)

Fghting Forms- 1914- Frans Marc 
A poesia me acompanha como sombra,
deixa arquivos, marcas, desde a pouca idade.
Todo poeta tem esse olhar que o assombra.
Visão incomum de plural liberdade.

Posseira de mim, deita em minha cama,
bole meu corpo, e como febre ela arde.
Amando, goza rindo essa cigana,
depois do orgasmo fica a soledade.

Desafio de gosto quente, triste alegria,
despida em publico por veleidade.
O que escrevo já não é o que queria,
mas o que ela diz a mim, outra vontade.

Quando acordo e a vejo ao lado, noutro dia,
desconfio que eu estava bêbado e agora é tarde.
Posto que ela fez comigo o que queria.
Eu fui um vassalo nu de sua propriedade.

No papel vazio trançaram pernas as palavras,
então darão sentidos outros à linguagem.
Livre e permissivo o pensamento sai sem travas.
Escrita, a poesia nova evoca outras imagens.

Ela vai sorrindo, trai a mim, ela corre, ela é de lua.
Depois de pronta, vai sozinha, perco a exclusividade.
Da poesia sou somente corno amante, ela é das ruas.
A palavra é o peito, é a pedra em alta volatilidade.

Não sendo minha, ao mundo vai quebrar vidraças.
Das bocas dos outros sai e corre em fé pública.
Desata os ventos nos sete mares de quem a laça.
A cada um se da em carne única.

Ataca ao coração, e o incendeia, de novo é outra.
Na boca do povo cai, de amor queima tão rubra.
Invasiva a todos grita, é Maria a rainha louca.
Cospe um dragão, que Jorge guerreiro derruba.

Não tem credo, nem cor, nem lugar ou paradeiro.
Dos sentimentos faz brasa, fogo e fumaça.
Poeta algum com ela ganha dinheiro,
mas não pode viver sem o ar da sua graça.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Das nuvens ( O olhar da carranca)

Fotografia:TV P&B.1- Tadeu Viilani
Sempre é preciso cuidado, com muita atenção,
para a possibilidade da paralisia travestida
na aparência de conteudo, ou movimento de vida.
Essa falsa amplitude pode esconder apenas uma ilusão.
A letargia imobilizante nas telas, pode ser custo ou caução,
cobrados à uma geração que tenta matar a sede,
com a água imaginária que a virtualidade lhes concede.
Indivíduos se agarram aferrolhados, como ganchos nas paredes
existentes no psiquismo social das redes.
Tornando-se apenas evidentes condenados à colorida,
maquiada, e mais desumana face moderna da antiga solidão.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Visão de mundo ( O olhar da carranca)

Fotografia: Direção-Caró Lago
Eu e o que é de mim, em tudo, não sei sempre.
Vivo o tempo dividido, ele mesmo, em partes três.
O passado guardo o quanto à memória o venha.
O presente é um fogo a queimar em carne lenha.
O futuro não vem sempre no rosto que imaginei.

Os dias meus nunca o são da eterna idade.
O tempo venta na cabeça em que o raspei.
Mundana e curta é a má  perversidade.
Trago às narinas o ar da felicidade.
Porque a vida é um fato forte, e mais não sei.

Aos inimigos tempo nenhum dediquei.
Aonde eu vivo é aonde areja a vida.
Trago nos versos o punho da mão direita.
Doença alheia em meu corpo não se ajeita.
Pobre é o despeito, e a inveja é uma ferida.

Não vendo à Deus as respostas dos meus erros
Os meus segredos são para quem deixo entrar
Outros desfazem dos detalhes dos seus medos
Ah! Como é alegre o engano ao ledo
Não chego cedo para não me atrasar

Poucos me dizem quantos Eus existem quentes
Um por dentro, outro por fora, e ao outro a lei
Se Europeu, Nagô, Judeu ou Tupiniquim
O meu começo não tem o endereço do fim
Eles que ponham olhos onde não olhei.
.
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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Rima à vida ( Olhos nus)

Fotografia: Mãe Menininha do Gantois- Luciano Andrade
Todos os dias, todas as horas, sempre e agora.
São disponíveis aos seus rebentos essas senhoras.
Seram meninos eternamente por toda vida.
Sempre a eles vêm sorridentes, comum guarida.
Seram seus colos, o aconchego para as feridas.
Pois guardiãs das atenções, são carinhosas.

Temos de todas as opções, da elite ao povo.
Sujas de graxa, trabalhadoras, sujas de ovo.
No coletivo são condução, pilotam manche de avião.
Se eles não podem, dizem que não.
Mães de juízes são um palavrão
que o estádio louva sempre de novo.

Saem de casa pra trabalhar de madrugada.
Os filhos delas têm um porto para a chegada.
Trazem remédios, fazem o gosto, matam a fome.
Muitas das vezes são da família o esteio e fonte.
Lavam vasilhas, vão pra Brasília, são empregadas.
Cobrem do frio, fazem silêncio, não cobram nada

Costuram roupas, pintam cabelos e fazem unhas.
Essas doutoras dizem conselhos, são testemunhas.
Dirigem carros, fumam cigarros, levam á escola.
Olham por dentro, fazem alentos, beijam quem chora.
São diretoras, sabem de tudo, são professoras, valem penhora.
Depois que partem ficam maiores que se supunha.

Sempre presentes, ganham presentes feitos de laços.
Ricas ou pobres, se for sem cobre, ganham abraços.
No mês de maio se comemoram em felicidades.
Há um carinho que reverbera em toda cidade.
Sejam idosas ou jovens mães de pouca idade.
Há vida nelas, dessa  aventura são os regaços.

Pátria mãe, puta mãe, língua mãe, nave mãe!
Casa de mãe, papo de mãe, coisa de mãe!
Coração de mãe é assim, de todos  mãe!
Materna por natureza é a vida feminina.
Houvera Deus criado a crença dessa estima,
mulher é mãe, e toda mãe da rima à vida.
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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Comédia desumana ( Barril Diógenes)

Fotografia: Porque???- Ana Luar
Divina é a comedia humana,
no porta-luvas vira gigante.
Guarda sua radiante fama
Dos sonhos faz inferno de Dante.

Na selva escura de puro asfalto,
não se assegura o mínimo rastro.
Se a escala é dura rumo ao salto,
muitos quedarão com um infarto.

A vida trava uma luta cruel,
onde um vulto não é homem mais.
Dita Virgílio a caminho do céu:
É a loba vida que intriga à paz.

Vai sendo feita ao tempo a jornada,
em que se perdem muitos dos homens.
Na covardia das más palavras,
findam os que se perderam ontem.

Pobre da alma que acolhe a um mal,
ao qual se divulga com maestria,
mais não afeta, esse ato desigual,
tal desatino a quem não cabia.

Feita de calma e força, é a coragem,
não se esconde em tal atitude.
No anonimato de fiel clivagem,
com o silêncio não se discute.

Ao breu se esvai o caluniador.
Por mim se vai à cidade dolente.
Não cabe um ai na eterna dor.
Assim se vai tão perdida gente.

São pessoas que sofrem tanto,
inferiores como Caronte.
Guardam suas vidas num falso manto,
vivem num limbo sem horizonte.

Deixo a Minós vir os pecadores.
Ele os faça, um a um, nas sentenças.
De historias tristes são portadores.
Têm solidão por recompensa.

Difícil reconhecer a imundos,
de cuja alma nada se salva.
São só inúteis nunca profundos,
para seus erros não há ressalva.

Pobres coitados com vara e lama,
de cujas vidas eu vou declinar,
pois quem bebeu de Copacabana
Trás sempre aos olhos nave do mar.

sábado, 23 de abril de 2011

Poema em blocos ( Perna bamba é do samba)

Fotografia: Nervos de aço- Elifas Andreato
Se não quer me dar me empresta
com simpatia é quase amor
Só o cume interessa
tá pirando, pirado, pirou.

Quem não guenta bebe agua
ou escorrega mas não cai
Vou no bloco rua larga
que concentra mas não sai

Nem muda nem sai de cima
mas imprensa que eu gamo
Das amigas da esquina
Já comi pior pagando

Vou sair no escangalha
sou escravo da Mauá
Rola tarda mas não falha
vou treinar é volto já.

Vem ni mim que sou facinha
senta aí que eu empurro
Desfilando só na minha
então vem que eu tou duro.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Não demoro (Perna bamba é do samba)



Fotografia: Vai -Mika
O amor deflagra o calor nos amantes.
Com a brasa lambida do fogo ateado no corpo.
Condena em silêncio fatal aos seus, aos replicantes.
No outro o desejo de amar traz o mar, Cais do porto.
O amor faz reclame a todos,  a todo instante.
Mesmo na descrença se é dele decano ou devoto.
Arrasa com a solidão num desvão, vendaval, num rompante.
Seja no beijo da foto, na brisa ou bagaço do terremoto.
Por vezes a forma de amor é tal deselegante.
Seja ele um pé de chinelos, novelo ou  angú de caroço.
Da forma que for, se é amor, é sempre mais edificante.
Seja ele atuante, ofegante, na  idade de velhos ou moços.
Amar é um ato afoito, é coito de fé delirante.
Na guerra do corpo a corpo respiram suados destroços.
Á tarde , na rua, na lua na mesa do restaurante.
Num chope gelado, bem acompanhado de pobres tremoços.
Assim quando já não há mais nada a perder, ele vem assaltante.
Ele entra por dentro da gente, delinquente, por todos os poros.
Seja certo que amar é medir pelo metro maior dos errantes.
Quando ouvem nos labios das bocas suspiros e sinais sonoros.
Ele esta onde não caberia, por ser de tamanho tão grande.
Depois põe fogo em toda Roma e conclama povo no foro.
Mas meu, amor, sendo noite, eu te peço que espere um instante.
Vou lá fora comprar um cigarro, juro que eu não me demoro.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O beijo no circo da alma

Fotografia:O beijo- Sara Martins
.
Um beijo é a fala dos amantes
Ou mesmo o afeto dos amigos
Na face beijo é coisa elegante
Tradição na história, é bonito

Um beijo se dá a quem vai embora
A quem chega o beijo é bem vindo
Também se beija o rosto de quem chora
Beija-se em pares quando o amor é lindo

Beijar é ato de maior humana glória
Mostrando um ao outro em convite
Correspondido ele fica na memória
Beijo roubado não é algo que se evite

Beijo à face, beijo às costas, beijo à nuca
Beijo a filhos, do desejo e de novelas
Beijo bobo ou de língua, longa ou curta
Beijam-se eles e também se beijam elas

Todo tempo, todo dia, toda hora
Todos beijam desde o tempo de criança
Juventude de senhor e de senhora
Pois o beijo na idade não se cansa

Beijo aberto ou beijo de amor bandido
Beijo doce, beijo sempre tem sabor
Por vergonha tem o beijo escondido
Qualquer beijo vale a pena como for

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Voltei aos dezessete ( Mamulengo)

Fotografia -La Sebastiana- Valparaiso
Caros amigos

Desculpem demorar a responder aos emails, mas estive fora por uns dias.
Fomos  visitar a Dom Pablo, a quem não via já a algum tempo e queria o reencontrar .
Fui à La Chascona mas lá não estava, achamos à casa grená fechada e o caseiro não permitiu que o aguardássemos  pois não sabia quando voltaria. Também pudera, chegamos de madrugada  sem avisar que viríamos, um completo abuso.
Dom Pablo não poderia adivinhar.
Maria aproveitou para rever à Rosália, sua amiga de boemia e vizinha de La Chascona.
Vadiamos pela Providência, bebemos alguns Pisco-Sauers para aguçar a imaginação às estrelas no velho boteco Venézia, onde encontramos o amigo Jaime.
Encontrar o Jaime foi muito bom, ele sim parece que aguardava a nossa chegada no Venézia para um uns chopes Escudo, bebida muito apreciada por Maria, já nos estava ele aguardando na mesa de sempre.
Jaime nos disse que talvez pudesse o poeta ter se escondido em Valparaiso ou em sua casa de praia com Matilde para o fim de semana.
Para facilitar a nossa vida, o amigo reservara aposentos naquela cidade para o caso de não acharmos lá o nosso Neruda. Maria bebeu todos os Escudos que quis e mais alguns por conta de Jaime.
Optamos por procurar em Isla Negra primeiro, e assim voltamos ao nosso objetivo de viagem: Encontrar a Pablo.
O velho caseiro nos dera a hipótese de aguardar até segunda feira em Santiago, mas não tínhamos esse tempo todo, por isso rumamos ao mar, pois em se tratando de fim de semana o velho poeta poderia estar em sua casa de praia.
Tomamos o ônibus à tarde pois tínhamos que diluir na cama o coquetel de pisco e chopes da noite anterior.
viajamos por cerca de uma hora e meia ao lugarejo marítimo onde nos aguardava a velha amiga Braso-argentina Soledad; de fato encontramos nossa amiga um pouco triste, parecia sofrer com peso do próprio nome.
Soledad padecia de tristeza o bastante para brincar com sua própria desventura amorosa; Seu amor não viera junto com ela à Isla para nos receber. Fora sozinho ao Brasil assistir ao Jogo Botafogo e Boca Júnior pela Libertadores e estava em Búzios lamentando a derrota como bom Argentino.
O amor tem suas dificuldades de ofício nos afastamentos. Soledad que os decifre  na tristeza de sua solidão.
Mas enfim chegamos ao barco do Senhor Neruda.
Sua casa fundeada nas ondas do mar em meio às pedras estava vazia, somente os serviçais a ocupavam de gentilezas junto com seus objetos. Dom Pablo não estivera lá nesse fim de semana, pois estava meio gripado, foi o que nos informaram seus gentis empregados.
Maria ficara bastante preocupada com o estado de saúde de Pablo, isso a emocionara de forma a se levar às lágrimas.
Mas onde encontrá-lo? Teria viajado até à Birmânia? Estaria em Paris com sua Matilde?
Ah! Meus amigos, isso não sabemos.
Por hora o que pude fazer para abrandar a situação tanto de Maria quanto de Soledad, foi procurar o lugar mais próximo onde abrir uma garrafa de um bom vinho emergencial. Para lavar-lhes as almas e acalmar-lhes os corações apertados por motivos diferentes. Um por ausência e outro por compaixão.
Bebemos e nos despedimos das pedras e do mar do poeta sem a sua presença. Seguimos à sua busca após nos despedirmos de nossa amiga quase brasileira, é óbvio.
Voltamos a Santiago para organizar melhor nossa procura, restava ainda a possibilidade de achar à Pablo nos morros de Valparaiso, nossa última tentativa no Chile.
Já pensávamos em procurá-lo na Espanha ou no Ceilão caso não obtivéssemos sucesso.
Após um prato de mariscos no mercado municipal de Santiago fomos enfim ao último reduto aonde pudéssemos encontrar o Nobel poeta e amigo.
Atravessamos o sol dos vinhedos do Máipo e seguimos ao frio de Valpa. Cerro Bellavista nos aguardava com sua névoa.
Muito frio, muito frio meus amigos.
A cidade é um porto desse poeta colecionador de coisas do mar.
Ponto de observação náutica para esse marinheiro das palavras.
Cerro de altitude  bastante para se observar o mundo das armadas.
Lugar onde se pode viver as alturas de um beijo na mulher amada.
Foi lá nas grimpas de La Sebastiana que eu e Maria encontramos por fim ao poeta andarilho; Lá estava ele, como um capitão de sua torre de comando, sentado na nuvem a observar o Coro-coro vermelho enjaulado no ar de sua casa.
Maria o viu primeiro e correu a cumprimentá-lo mais próximo, antes mesmo de ver à Matilde que sentava-se à sua frente. Queria saber de sua saúde antes de tudo.
O velho preguiçoso de tintas verdes nos dedos pôs-se a acalma-la com sua voz rouca e funda.
_Tranquila menina, tranquila, eu estou bem!
Logo atrás vim caminhando lentamente, claudicando pelas escadas fui ao encontro de meu amigo, que ao me ver levantou o corpo de sua nuvem e veio para um abraço afetuoso.
Estou te procurando a três dias meu caro, estive em suas outras casas!
Estou aqui meu amigo, é sempre para onde venho quando quero ver o mundo, disse sorrindo em minha direção.
Dom Pablo perguntou de sopetão se tenho aproveitado seus ensinamentos no que escrevo, se estou escrevendo todos os dias e por fim se bebo alguma coisa para aliviar o cansaço da subida.
Expliquei-lhe que agora não bebo mais tanto assim, mas ele não aceitou minhas desculpas, dirigindo-se ao bar para iniciar o que acabou se transformando em uma festa.
Depois de algumas doses o mestre da poesia se dirigiu á cozinha para preparar uma costela de cerdo assada, à qual fez questão que eu guardasse a receita na memória.

Um quilo de costela de boi, preferencialmente a parte do dorso.
Deve-se, segundo Pablo, colocar na chapa quente para selar os pedaços da carne.
Assim não se perderá os sucos e a maciez no cozimento.
Uma parte de água para duas de vinho de boa qualidade.
Salsa, salsão, alho poró, um amarado de ervas a gosto.
Cebola, legumes, alho e sal também a gosto.
Cozinhar tudo por aproximadamente duas Horas e meia.
Esse é um tempo adequado para colocarmos os assuntos em dia, em boas doses de wisque.
Depois em uma frigideira devemos saltear champignons, shiitakes em molho ao funghi, feito na manteiga e engrossado com o vinhadalho por redução.
Segundo o chef Neruda deve ser esse prato degustado com o acompanhamento de um purê de batatas e salada.
Nunca esquecer de que o gosto se apura com um bom vinho chileno, casta especial Cabernet savignon  do melhor free-shop. Para encontrá-lo é preciso viajar na solidariedade dos homens.
Depois dessa aula iniciamos o nosso sarau gastronômico cultural, que só terminaria no Cinzano com um Pisco a mais de boa conversa fiada e muita gargalhada.
Após o café despedimo-nos Maria e eu de Matilde e Pablo.
Maria sorria feliz como sempre faz depois de um vinho, principalmente porque nosso amigo Neruda a tranquilizara de sua saúde e estava bem vivo ao lado de sua Matilde.
Quanto a mim, sentia como quem houvera cumprido um dever. Apenas voltei ao dezessete.
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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Solução ( Perna bamba é do samba)

Fotografia: Enredo do meu Samba-Leila Lage
Quando a tristeza persiste Te fazendo triste
não tem jeito não.
Tem que beber de um samba fundo de quintal
para achar solução.

Solução....

Quando o desejo é um beijo, deseja desejos 
de um samba canção.
O amor esbarra nas línguas vibrando
como cordas de violão.

Solução....

Você que o olha  de longe, no olhar esconde
o calor da paixão.
Não vê que a vida te abraça no corpo aonde
há um toque com as mãos.

Solução...

Vê, vai seguindo sozinha, sem entrar na minha
não tem solução.
Pois este olhar continua te fazendo nua
em exposição.

Solução...

Exposta como lua atravessando a rua
do meu coração.
Tente mudar a conduta que vida é curta
e tem solução.

Solução.....

terça-feira, 29 de março de 2011

Sorriso ao Esteves ( Banguelê)

Fotografia: Trabalho e poesia- Lilian Moura
O dono da tabacaria sorriu para o Esteves.
Não sei muito bem porque, a que propósito.
O universo humano tem suas infinitudes,
mesmo que a humanidade se detenha em paredes.
Certos princípios já nascem com o gene do seu óbito.
Até mesmo o pensamento é vulneravel. Tem latitude e longitude.
A vida é um fato que só se costura no tecido das suas próprias atitudes.
Ainda que o Esteves ganhe um sorriso óbvio,
ainda que a humanidade tenha se limitado em redes.
Tem-se que querer ousar, buscar aos afetos como quem tem sede.
Buscar a felicidade lavando os desejos com os próprios olhos,
a partir daí, somam-se o quantum das virtudes.
Eu não poderia amar à filha de minha empregada,
sequer tive a felicidade real de conhece-la.
Nem a ela e nem á menina de Cacau lambuzada.
Amo a mulher a quem divido com a psicanálise.
Desse amor me faço em chamas verdadeiras, a fundo.
Mais de mim á ela trago no pó da estrada.
Mais que isso, eu não poderei ser nada.
Nada alem do que há em mim, dos sonhos desse mundo.
Ela sim é capaz de ver as coisas que há por baixo das pedras dos seres.
Já eu sei apenas dos sonhos, no que são reais por dentro,
sei apenas dos outros, no que são reais por junto,
sei também dos tantos,  no que são reais por fora.
Pelo tempo, penso que já o saberia.
Saí de casa muito cedo, muito cedo verti poesia.
Eu que quando jovem fui descaso das certezas,
porquanto nunca as tive próximas.
Hoje conquisto o mundo todas as manhãs,
com ou sem a metafísica das pessoas.
Causa porque elas me são mais, sem ringue na sobrevivência,
sem "timing" da concorrência, também  sem proclamas de marketing,
e sem os estragos desumanos do universo financeiro.
Não trago em mim até agora nenhuma desonra nisso.
Quanto à Tabacaria !
Deixo-a aos fumantes que desejam a morte pelos pulmões,
pois o Esteves nunca lá esteve, morava longe de fato.
Por sintonia a mim mesmo, me deixo com os meus desejos
nos abraços de Maria.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O bico da Sinuca ( Mamulengo)

Fotografia: Bolas da cinuca- H.Ralf Lundgren
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Pela bola sete do jogo do amor,
o fio da Gillette é a cicatriz da dor.
Se o sorriso repete as bocas do calor,
são bolhas de confete numa Veuve Clicquot.

Sendo então pela ordem da vez a bola seis,
pontua-se em pano verde as contas do freguês.
Com o perfume da rosa que atenda à sensatez,
O poeta que se cuide no seu bom Português.

A bola cinco azul celeste é cor do céu.
Se acaso for descuido inverta-se o papel.
Sê vinho com veludo, sê gosto como mel.
Pois se o amor é tudo, não tenha dele o fel.

O tempo dos amantes seguirá sempre o tom
das quatro estações, se a bola for marrom.
Se é perto é chamego, se é longe é ponto com.
Pois sendo esse o segredo, há nele o que é bom.

Todos à ela desejam, a três, a bola verde.
Gelada agua de coco é bom para quem tem sede.
Cumplicidade em cama ou balançar de rede.
Queimam-se em chamas entre as quatro paredes.

Segunda bola em jogo. Atentem-se à amarela!
Pois dentro dessa flor afastam-se as quimeras.
O sol tem seu calor e a  China tem chinelas.
Todo romance em cor perfuma a coisa bela.

Quando a prima bola inflama, é vermelha.
Aonde chega invade em presente centelha.
toda mesa se abra, é o que se aconselha.
Se alguém tiver vergonha, queime suas orelhas.

Germina-se um poema no que ele é loquaz.
No bico da sinuca a saída se refaz.
Se a vida é muito curta, amar é ser audaz.
Assim com a bola branca amor eu peço paz